Toy Story 5 é a prova de que a Pixar ainda tem sua magia e muito o que dizer (Crítica)
Quinto capítulo da franquia iniciada em 1995, Toy Story 5 acompanha uma nova transformação na rotina de Woody, Buzz Lightyear, Jessie e dos demais brinquedos de Bonnie. Desta vez, o grupo precisa lidar com a chegada de Lilypad, um tablet inteligente em formato de sapo que rapidamente conquista a atenção da menina e coloca em dúvida o espaço das brincadeiras tradicionais em uma infância cada vez mais conectada às telas.
Produzida pela Disney e pela Pixar, a animação é dirigida por Andrew Stanton, responsável por Procurando Nemo, WALL-E e Procurando Dory, com codireção de Kenna Harris. Os dois também assinam o roteiro, desenvolvido a partir de uma história criada por Stanton, enquanto Lindsey Collins assume a produção e Randy Newman retorna para compor a trilha sonora. O elenco de vozes reúne novamente Tom Hanks como Woody, Tim Allen como Buzz e Joan Cusack como Jessie, além de Greta Lee como a nova personagem Lilypad. Com 1h42 de duração, Toy Story 5 chegou aos cinemas em 19 de junho de 2026.
Crítica – Toy Story 5
Para quem cresceu acompanhando os filmes de Toy Story, é impossível receber cada nova continuação sem alguma desconfiança. O terceiro longa parecia oferecer o encerramento perfeito para a história daqueles personagens, com uma despedida emocionante que marcou toda uma geração. Quando Toy Story 4 foi anunciado, a principal dúvida era se ainda existia uma história que realmente precisasse ser contada. O resultado foi um filme muito bom, mesmo que sua existência talvez nunca tenha parecido completamente necessária.
Com Toy Story 5, esse questionamento se tornou ainda maior. Depois de alguns anos complicados para a Pixar e para a própria Disney, marcados por animações que não alcançaram o mesmo impacto de produções anteriores, excesso de continuações e diversos remakes em live-action, o retorno de Woody, Buzz, Jessie e companhia facilmente poderia ser interpretado como uma tentativa de recorrer novamente à nostalgia.
A grande surpresa é que o filme não apenas encontra uma justificativa para existir como também apresenta uma discussão extremamente atual. Desde os primeiros trailers, a ideia de colocar os brinquedos diante do avanço da tecnologia parecia promissora. Afinal, estamos vivendo em uma época em que as telas ocupam cada vez mais espaço na rotina das crianças, muitas vezes substituindo brincadeiras, brinquedos e até mesmo o contato com outras pessoas.
Toy Story 5 compreende muito bem essa realidade, mas toma uma decisão inteligente ao não transformar a tecnologia em uma vilã absoluta. Durante boa parte da história, somos levados a acreditar que Lilypad representa a grande ameaça para os brinquedos. Aos poucos, porém, o filme revela que ela possui essencialmente o mesmo objetivo que eles: divertir sua criança e fazê-la feliz.
Quando percebe que já não consegue cumprir essa função, Lilypad também se sente descartável. Essa escolha torna o conflito muito mais interessante, porque o filme não defende que toda tecnologia seja ruim ou que as crianças devam simplesmente abandonar as telas. A mensagem está na importância do equilíbrio, na valorização do ato de brincar e na possibilidade de utilizar as novas tecnologias a nosso favor, sem permitir que elas ocupem todos os espaços da infância.
Ainda assim, embora essa discussão seja importante, o verdadeiro coração de Toy Story 5 está em Jessie. Enquanto Woody e Buzz ocuparam naturalmente o centro dos filmes anteriores, desta vez é ela quem assume as rédeas da história. E essa mudança de protagonismo funciona muito bem.
O longa recupera o passado da personagem e aprofunda um trauma que sempre esteve presente em sua trajetória: o medo de ser abandonada novamente. Jessie nunca esqueceu sua primeira criança e, justamente por ter vivido essa perda, carrega a insegurança de que tudo aquilo possa se repetir. Mais do que colocá-la à frente da aventura, o filme utiliza essa jornada para finalmente oferecer um encerramento emocional ao seu arco.
Durante toda a história, fiquei imaginando como esse reencontro com o passado seria resolvido. Pensei que Jessie poderia encontrar sua antiga dona já adulta, conhecer sua filha ou até descobrir que havia sido passada para alguém da família. Existiam inúmeras possibilidades, mas o filme consegue apresentar uma conclusão ainda mais bonita do que qualquer uma delas.
Ao encontrar lembranças guardadas em um lugar que havia sido especial para as duas, Jessie descobre que sua antiga dona deu o nome dela à própria filha. É uma revelação simples, mas profundamente emocionante. Jessie finalmente entende que não foi esquecida. Pelo contrário: sua presença foi tão importante na infância daquela menina que permaneceu viva durante toda a sua vida.
É um momento que ressignifica completamente o medo de abandono da personagem. Mesmo depois da separação, tudo o que elas viveram continuou existindo. Jessie talvez não tenha permanecido fisicamente ao lado de sua primeira criança, mas deixou uma marca definitiva nela. O filme encontra, assim, a maneira mais bonita possível de concluir essa história. É uma cena emocionante, capaz de provocar lágrimas e arrepios justamente porque não depende apenas da nostalgia: ela oferece uma resposta verdadeira para uma ferida que acompanhava a personagem havia anos.
A parte artística também merece destaque pela maneira inteligente como o filme representa a imaginação durante as brincadeiras. Em um momento no qual muitas animações abandonaram seus estilos tradicionais ou passaram a incorporar a estética híbrida de 2D com 3D popularizada por Homem-Aranha no Aranhaverso, Toy Story 5 permanece fiel ao visual clássico da Pixar, que já havia sido bastante aprimorado e refinado ao longo dos filmes anteriores. No entanto, em vez de ignorar essa tendência contemporânea, o longa reserva esse estilo mais experimental justamente para as sequências em que as crianças e os brinquedos imaginam mundos, aventuras e missões durante o ato de brincar.
A mudança visual transforma esses momentos em explosões de criatividade, com cores, texturas e movimentos que parecem nascer diretamente da imaginação infantil. É uma escolha linda, que funciona demais porque não descaracteriza a identidade da franquia. Pelo contrário: utiliza uma estética hoje muito presente no cinema de animação como ferramenta narrativa para mostrar que, durante uma brincadeira, qualquer lugar pode se transformar em um universo completamente novo.
O grupo de Buzz Lightyears também rende alguns dos momentos mais divertidos do filme. Eles acreditam estar envolvidos em uma grande missão, até perceberem que sua verdadeira função é muito mais simples e significativa: fazer uma criança feliz. A cena pós-créditos, mostrando todos eles chegando a uma escola para finalmente cumprir esse propósito, reforça de maneira delicada a principal mensagem da franquia. Um brinquedo não precisa salvar o universo para ser importante. Às vezes, seu maior ato heroico é acompanhar uma criança enquanto ela cresce.
Além disso, Toy Story 5 oferece diversas referências e easter eggs para quem acompanha a saga desde o início, sem transformar o filme apenas em uma coleção de lembranças. As referências conversam com o público mais velho, enquanto o humor, a aventura e os novos conflitos funcionam perfeitamente para as crianças.
Esse equilíbrio entre gerações sempre foi uma das maiores qualidades da Pixar. Seus melhores filmes conseguem divertir os pequenos enquanto discutem sentimentos, mudanças e inseguranças que atingem profundamente os adultos. Toy Story 5 recupera essa característica ao contar uma história sobre tecnologia e infância, mas também sobre memória, legado e sobre as marcas que deixamos na vida das pessoas.
No fim, Disney e Pixar provam mais uma vez que ainda existem boas histórias a serem contadas dentro desse universo. Toy Story 5 conversa com quem cresceu ao lado desses personagens, mas também se apresenta para uma nova geração que vive uma infância completamente diferente.
É um filme divertido, positivo, atual e, acima de tudo, muito emocionante. Talvez a maior vitória da produção seja justamente transformar uma continuação inicialmente questionável em uma história que parece necessária. Não apenas porque reencontramos personagens queridos, mas porque eles retornam tendo algo novo, relevante e sincero para dizer.

Nota: 5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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