Godzilla Minus Zero impressiona com os monstros, mas tropeça no drama humano (Crítica)
Três anos após o lançamento de Godzilla Minus One (2023), o diretor e roteirista Takashi Yamazaki retorna à franquia japonesa com Godzilla Minus Zero. A sequência dá continuidade à história da família Shikishima e volta a situar o icônico monstro em um Japão marcado pelas consequências da Segunda Guerra Mundial.
Ambientada em 1949, dois anos após os acontecimentos do filme anterior, a trama acompanha Koichi e Noriko Shikishima enquanto o país tenta reconstruir sua rotina. Entretanto, a paz conquistada com dificuldade é interrompida por uma nova ameaça, colocando novamente a população diante de uma possível catástrofe. Com direção e roteiro de Takashi Yamazaki, o filme japonês tem 2h15 de duração e reúne no elenco Ryunosuke Kamiki, Minami Hamabe, Hidetaka Yoshioka, Yuki Yamada e Min Tanaka.
Tive a oportunidade de assistir a Godzilla Minus Zero antecipadamente, em uma cabine de imprensa. No Brasil, o longa é distribuído pela Sato Company e terá sessões antecipadas em IMAX a partir desta terça-feira, 3 de novembro, data em que se celebra o Dia do Godzilla. Já a estreia oficial no circuito nacional acontece na quinta-feira, 5 de novembro de 2026.
Crítica – Godzilla Minus Zero
O velho problema dos filmes de monstros gigantes
Godzilla Minus Zero sofre, para mim, de um problema bastante comum em produções sobre monstros gigantes: a dificuldade de construir uma história humana tão interessante quanto os confrontos entre as criaturas. Isso não acontece apenas aqui. É algo que também percebo, em diferentes intensidades, em Godzilla Minus One e em vários filmes hollywoodianos do Godzilla e do Kong.
Entendo por que essas histórias existem. Um filme de duas horas não pode depender exclusivamente de monstros destruindo cidades e lutando entre si. É necessário criar personagens, conflitos e situações que deem sustentação à narrativa. O problema é que, muitas vezes, esse drama parece funcionar apenas como um preenchimento entre as grandes sequências de ação. Em vez de fortalecer o espetáculo, acaba interrompendo o que há de mais interessante nele.
Uma das exceções que encontro nesse subgênero é Kong: A Ilha da Caveira. O filme apresenta personagens e conflitos mais envolventes, ajudado também por um elenco que inclui Samuel L. Jackson, Brie Larson e Tom Hiddleston. O personagem de Jackson, por exemplo, se torna quase um antagonista dentro da própria história. Já Monarch: Legado de Monstros segue um caminho diferente: como seu foco desde o início é a experiência humana nesse universo, a série consegue dar mais sentido a esse tipo de narrativa.
Em Godzilla Minus Zero, infelizmente, não senti que esse equilíbrio funcionou. A história dos personagens não me envolveu o suficiente, e os conflitos dramáticos raramente alcançam a força das sequências protagonizadas pelas criaturas.
Quando os monstros entram em cena, o filme funciona muito bem
Por outro lado, se a expectativa é assistir a um grande espetáculo de monstros gigantes se enfrentando, Godzilla Minus Zero entrega exatamente isso — e entrega muito bem. As cenas de ação são empolgantes, os confrontos têm escala e os efeitos visuais são impressionantes.
Arrisco dizer, inclusive, que visualmente este filme supera o anterior. Godzilla Minus One mereceu os elogios que recebeu pelo trabalho realizado com recursos relativamente modestos. Ainda assim, nunca considerei que seus efeitos fossem necessariamente os melhores que eu havia visto naquele período. Na minha percepção, o reconhecimento também foi impulsionado pelo feito de alcançar aquele resultado com uma equipe e um orçamento enxutos.
Aqui, sinto uma evolução técnica clara. A movimentação dos monstros, o peso das criaturas e a grandiosidade da destruição tornam a experiência mais envolvente. O longa foi produzido com câmeras certificadas para IMAX e, mesmo sem tê-lo assistido nesse formato, consegui perceber a ambição visual maior. Não me surpreenderia se a produção voltasse a aparecer na conversa sobre os efeitos visuais do Oscar.
A presença de Ghidorah é um dos grandes atrativos. Seu desenvolvimento visual e as batalhas com Godzilla estão entre os momentos mais empolgantes da produção. Quando Yamazaki concentra a narrativa nessa dimensão do filme, o resultado é excelente.
Uma mensagem política que fica na superfície
Atenção: a partir deste ponto, a crítica comenta alguns acontecimentos da trama.
Desde sua origem, Godzilla está ligado ao trauma nuclear japonês. Por isso, é natural que uma sequência ambientada no pós-guerra tente falar também sobre Hiroshima, os Estados Unidos e as consequências da bomba atômica. O próprio Yamazaki já declarou, em conversas sobre Oppenheimer, de Christopher Nolan, que gostaria de realizar um filme que apresentasse uma resposta japonesa àquela história. Isso não significa que ele tenha anunciado Godzilla Minus Zero como essa resposta, mas há elementos aqui que me fizeram enxergar uma tentativa de dialogar com o assunto.
O roteiro apresenta um personagem marcado pela destruição de Hiroshima e pela perda da família, que passa a desejar uma vingança contra os Estados Unidos. Seu plano envolve levar Godzilla até Nova York, e o filme chega a imaginar a devastação da cidade pelo monstro. É uma ideia que poderia abrir espaço para uma discussão muito mais contundente sobre guerra, responsabilidade histórica, trauma e revanche.
No entanto, achei essa abordagem rasa. A motivação existe e ajuda a movimentar parte do enredo, mas não se transforma em um conflito verdadeiramente profundo nem em uma crítica política marcante. Há muito a discutir sobre as decisões dos Estados Unidos na guerra, sem que isso exija tratar o Japão como uma vítima absolutamente inocente de todo aquele contexto histórico. Essa complexidade quase não aparece. O que poderia ser uma reflexão poderosa acaba reduzido a um instrumento da trama.
Algo parecido acontece com Noriko. Sua ligação biológica com Godzilla ganha uma utilidade concreta no plano dos personagens, especialmente na tentativa de atrair o monstro. A solução faz sentido para a ação, mas a história não extrai dela todo o potencial dramático que parece prometer. Mais uma vez, a dimensão humana serve ao funcionamento do espetáculo sem ganhar vida própria.
O contraste fica ainda mais evidente diante da força das criaturas. A evolução de Ghidorah até King Ghidorah, a estratégia para colocar os monstros frente a frente e o retorno de Godzilla ao confronto são momentos que funcionam muito bem. É nessa parte que o longa realmente me conquista.
O estranhamento com as atuações e a linguagem japonesa
Também preciso reconhecer uma questão pessoal que influencia minha percepção do drama. Tenho certa dificuldade com algumas convenções de interpretação presentes em produções japonesas e, de modo mais amplo, em parte do cinema asiático. Não se trata apenas da diferença de idioma, mas do ritmo das falas, das entonações e da maneira como os personagens reagem emocionalmente às situações.
Em algumas cenas de Godzilla Minus Zero, por exemplo, percebi um tom quase engraçado em momentos que aparentemente buscavam ser dramáticos. Isso me deixou com a sensação inicial de que certas atuações estavam fora do tom. Mas é importante fazer a ressalva: talvez elas estejam plenamente ajustadas à linguagem da produção e apenas não correspondam à forma de atuação com que estou mais acostumado no cinema ocidental.
Por isso, não acho justo cravar que o elenco seja ruim. Conheço pouco do trabalho desses artistas fora dos filmes da franquia, e meu estranhamento cultural certamente interfere nessa avaliação. Ainda assim, essa distância contribuiu para que eu tivesse mais dificuldade de me conectar com a parte dramática da história.
Veredito: excelente espetáculo, drama pouco convincente
No fim, Godzilla Minus Zero é muito bom naquilo que faz de mais grandioso: colocar monstros gigantes em cena e transformar seus confrontos em um espetáculo visual. Os efeitos impressionam, as batalhas empolgam e a produção demonstra uma evolução técnica em relação ao antecessor.
Mas o filme tenta oferecer algo além disso. Quer emocionar com seus personagens e discutir feridas históricas ainda abertas. Para mim, nenhuma dessas duas ambições se concretiza com a mesma força. A mensagem política é superficial, e o núcleo humano continua sendo o elo mais frágil da narrativa.
É um ótimo filme para quem procura Godzilla e outros monstros em confrontos espetaculares. Para quem espera um drama humano realmente envolvente ou uma reflexão mais profunda por trás da destruição, porém, a experiência deixa a desejar.

Nota: 3,5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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