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O Outro Lado das Redes transforma os bastidores do Facebook em um alerta para a democracia (Crítica)

Em O Outro Lado das Redes (The Social Reckoning), Frances Haugen (Mikey Madison), uma jovem engenheira do Facebook, se une a Jeff Horwitz (Jeremy Allen White), jornalista do The Wall Street Journal, para revelar os segredos mais bem guardados da empresa. Inspirado em fatos reais e na investigação jornalística conhecida como The Facebook Files, o longa é uma obra complementar a A Rede Social (2010), mas troca a história da criação da plataforma por uma investigação sobre suas consequências políticas e sociais.

Escrito e dirigido por Aaron Sorkin, vencedor do Oscar pelo roteiro de A Rede Social e conhecido também por Steve Jobs e Os 7 de Chicago, o filme reúne Mikey Madison, vencedora do Oscar por Anora; Jeremy Allen White, de O Urso; Jeremy Strong, de Succession; além de Wunmi Mosaku, Betty Gilpin, Billy Magnussen e Bill Burr. Sorkin também dirigiu A Grande Jogada e Os 7 de Chicago, trazendo novamente seu estilo de diálogos rápidos e discussões intensas para uma história que mistura jornalismo, tecnologia e política.

O Outro Lado das Redes é um dos títulos da 50ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo. Assistimos ao filme a convite da Mostra, durante a coletiva de imprensa do evento, e ele ainda terá sessões nos dias 15/10, às 21h15, no Cinesystem Belas Artes Frei Caneca 1; 16/10, às 20h, no CineSesc; 19/10, às 18h15, no Cine Belas Artes — Sala 1 Leon Cakoff; e 21/10, às 19h30, no Solar — Sala Petrobras. A programação completa está disponível no site oficial da Mostra. Depois das exibições no festival, o filme estreia oficialmente nos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026.

Crítica – O Outro Lado das Redes

Uma continuação que eu não sabia que precisava existir

Quando saiu a notícia de que teríamos uma continuação de A Rede Social, confesso que fiquei com um pé atrás. Não sabia se existia tanta coisa a ser explorada a ponto de justificar um novo filme sobre o Facebook. Afinal, o longa de 2010 já tinha contado a história da criação da plataforma e das disputas que envolveram seu desenvolvimento. O que mais poderia ser dito?

A resposta veio de uma maneira que eu não esperava. O Outro Lado das Redes me surpreendeu muito e, para mim, entrou na lista dos melhores filmes do ano. Em vez de simplesmente tentar repetir a fórmula do primeiro longa, a sequência olha para o que aconteceu depois que o Facebook se tornou uma das plataformas mais poderosas do mundo.

Se A Rede Social conta como essa empresa nasceu, o novo filme está interessado nas consequências de seu crescimento. E elas vão muito além das disputas internas, dos conflitos entre seus fundadores ou das questões envolvendo a propriedade da companhia. O que está em jogo agora é a maneira como uma plataforma digital pode influenciar a sociedade, interferir no debate público e até contribuir para o avanço de movimentos políticos extremistas.

É uma continuação que encontra uma razão de existir justamente porque a história não terminou quando os créditos do primeiro filme subiram. Na verdade, os problemas que ela apresenta estão longe de ter sido resolvidos.

Quando o algoritmo deixa de ser neutro

Um dos pontos centrais do filme é a investigação que ficou conhecida como The Facebook Files, baseada em documentos internos da empresa obtidos e divulgados por jornalistas do The Wall Street Journal. O material trouxe à tona pesquisas que mostravam como o próprio Facebook tinha conhecimento de problemas relacionados ao funcionamento de seus produtos e aos efeitos que eles poderiam provocar.

A história acompanha Frances Haugen, que decide compartilhar documentos internos e expor o que sabia sobre a companhia. Com a ajuda do jornalista Jeff Horwitz, ela contribui para revelar informações que colocam em xeque a maneira como o Facebook lidava com questões de segurança, desinformação e radicalização.

Uma das revelações mais preocupantes envolve os sistemas de recomendação da plataforma. A ideia de que o algoritmo apenas mostra às pessoas aquilo de que elas gostam parece simples, mas ignora uma questão importante: as recomendações também podem conduzir os usuários a conteúdos que eles não procurariam espontaneamente.

O filme apresenta testes e documentos que ilustram esse problema. Em uma das experiências discutidas, uma conta fictícia começa sem um histórico de envolvimento com teorias conspiratórias e, em poucos dias, recebe recomendações relacionadas ao movimento QAnon. É uma demonstração de como a recomendação automática pode ajudar a aproximar usuários de ambientes extremistas.

Um documento interno citado em investigações sobre os Facebook Papers apontou que, em um recorte de grupos políticos alemães analisados em 2016, as ferramentas de recomendação da plataforma foram responsáveis por 64% das novas adesões a grupos extremistas. Esse número não significa que 64% de todos os usuários do Facebook tenham sido radicalizados pelo algoritmo, mas revela o peso que as recomendações tiveram naquele conjunto específico de grupos.

O mais perturbador é perceber que não estamos falando apenas de uma consequência imprevisível da tecnologia. Os documentos indicam que funcionários da própria empresa estudaram esses efeitos e discutiram maneiras de lidar com eles. A questão, portanto, passa a ser o que a companhia faz quando descobre que uma ferramenta criada para aumentar o envolvimento dos usuários também pode contribuir para a radicalização.

É aí que o filme acerta ao tirar o debate do campo puramente tecnológico. Um algoritmo não toma decisões no vácuo: ele é desenvolvido dentro de uma empresa, de acordo com prioridades e objetivos definidos por pessoas. Quando o engajamento se torna uma das principais medidas de sucesso, é necessário perguntar quais conteúdos estão sendo favorecidos e quais são as consequências disso.

Desinformação como modelo de negócio

Outro ponto importante é a maneira como o Facebook lida com anúncios políticos e publicações enganosas. O filme mostra a dificuldade de estabelecer limites para conteúdos de figuras políticas e campanhas que espalham informações falsas ou distorcidas, especialmente quando a empresa precisa decidir entre aplicar suas regras e evitar conflitos com pessoas poderosas.

A questão não é tão simples quanto dizer que toda publicação controversa deve ser removida. Existe uma discussão legítima sobre liberdade de expressão, critérios de moderação e os limites da atuação de empresas privadas. O problema é quando as regras não são aplicadas com transparência ou quando a plataforma parece tratar determinados atores de maneira diferente.

No filme, a manutenção de anúncios políticos contestados por desinformação ajuda a mostrar como a lógica comercial pode entrar em conflito com a responsabilidade pública. Se uma publicação provoca indignação, alimenta conflitos e faz as pessoas permanecerem mais tempo na plataforma, ela pode gerar resultados positivos para as métricas de engajamento, mesmo quando causa danos ao debate público.

Isso não significa que todo conteúdo viral seja falso ou que toda recomendação tenha uma intenção política deliberada. O ponto é outro: quando a empresa prioriza o envolvimento dos usuários, ela precisa responder pelo modo como esse objetivo interage com a circulação de mentiras, teorias conspiratórias e discursos extremistas.

A desinformação deixa de ser apenas um problema de usuários que compartilham notícias falsas. Ela passa a envolver também o funcionamento de um sistema que distribui conteúdo em escala gigantesca e que pode recompensar aquilo que provoca reações intensas.

É uma discussão que torna o filme tão relevante. Não basta uma empresa dizer que não produz as mentiras que circulam em sua plataforma. Também é necessário discutir o papel de suas ferramentas na distribuição desse material e o que ela faz quando sabe que determinados mecanismos podem ampliar o problema.

O impacto sobre adolescentes

As consequências do funcionamento das redes não se limitam à política. O Outro Lado das Redes também aborda os impactos que os produtos da empresa podem ter sobre jovens e adolescentes, especialmente meninas.

Um dos casos que ganhou destaque nas reportagens sobre os documentos internos do Instagram envolvia a relação entre a plataforma e a imagem corporal. Segundo uma apresentação interna divulgada pelo The Wall Street Journal, 32% das adolescentes que já se sentiam mal com o próprio corpo relataram que o Instagram fazia com que se sentissem ainda pior. É importante destacar que esse percentual se refere às meninas que já enfrentavam questões relacionadas à imagem corporal, e não a todas as adolescentes.

A própria Meta contestou parte da interpretação pública de sua pesquisa e argumentou que os documentos também registravam experiências positivas em outras áreas do bem-estar. Esse contraponto não elimina, porém, a preocupação com o grupo de jovens para o qual a plataforma pode agravar uma insegurança já existente.

A questão é especialmente delicada porque adolescentes ainda estão formando sua identidade e sua relação com o próprio corpo. Em um ambiente no qual imagens cuidadosamente selecionadas, padrões estéticos e comparações estão a poucos toques de distância, os efeitos não devem ser tratados como um detalhe irrelevante.

O filme consegue ampliar o debate ao mostrar que a responsabilidade de uma rede social não termina na proteção contra conteúdos explicitamente violentos ou ilegais. Também envolve a maneira como seus produtos são desenhados, o tipo de experiência que incentivam e o que a empresa faz quando suas próprias pesquisas apontam possíveis consequências negativas.

Um filme de conversas que nunca perde o ritmo

Mesmo tratando de assuntos complexos e apresentando muitos documentos, números e discussões internas, O Outro Lado das Redes não se torna cansativo. Esse foi um dos aspectos que mais me surpreenderam.

É um filme de conversas. Não estamos diante de um thriller tradicional, com grandes cenas de ação, perseguições ou sequências construídas para deixar o público na ponta da cadeira por meio do perigo físico. Boa parte da história se desenrola em salas de reunião, entrevistas e diálogos entre pessoas tentando compreender a dimensão do que está acontecendo.

Ainda assim, o longa consegue manter o interesse. A edição é muito boa, a direção sabe conduzir as discussões e o roteiro vai revelando informações aos poucos, fazendo com que cada novo documento acrescente uma camada à história.

Eu fiquei entretido e vidrado na tela. A cada descoberta, o filme apresenta mais um aspecto preocupante do funcionamento do Facebook e deixa aquela sensação incômoda de que ainda existe muita coisa que o público não conhece sobre as plataformas que utiliza diariamente.

O mérito está em transformar documentos, reuniões e debates corporativos em uma narrativa que tem ritmo e tensão. O espectador não precisa de explosões ou perseguições para sentir que existe algo importante em jogo. Basta acompanhar as pessoas tentando decidir o que fazer diante de informações que podem ter consequências enormes.

A montagem também ajuda a conectar os aspectos técnicos às consequências humanas. Em vez de deixar a discussão restrita a números e relatórios, o filme mostra por que essas decisões importam e como elas podem ultrapassar os limites de uma empresa.

Um trio que sustenta a história

As atuações também estão muito bem. Não acho que seja necessariamente o tipo de filme que vai render um Oscar para alguém, mas os três principais atores fazem um ótimo trabalho e sustentam a narrativa.

Jeremy Strong interpreta Mark Zuckerberg, trazendo para o personagem a postura controlada e a dificuldade de demonstrar abertamente o impacto das revelações. O filme não depende de uma interpretação caricata para apresentar os conflitos envolvendo o executivo. A tensão está muito mais nas conversas, nas justificativas e nas decisões que precisam ser tomadas.

Mikey Madison, por sua vez, está muito bem como Frances Haugen. Este é seu primeiro grande papel depois de Anora, filme pelo qual ganhou o Oscar, e a atriz demonstra uma versatilidade interessante ao construir uma personagem bastante diferente daquela que vimos anteriormente.

Em Anora, sua personagem é explosiva, combativa e muito segura de si. Frances, por outro lado, tem uma postura mais contida e introspectiva. Ela é apresentada como uma profissional com conhecimentos técnicos, preocupada com aquilo que descobriu dentro da empresa e que precisa encontrar uma maneira de tornar públicas informações difíceis de ignorar. Madison entende bem essa diferença e entrega uma atuação que funciona sem precisar exagerar nas emoções.

Jeremy Allen White, como Jeff Horwitz, completa o trio principal. Seu personagem representa o trabalho de investigação jornalística que transforma documentos internos em uma história compreensível para o público. A atuação contribui para o ritmo do filme e para a dinâmica entre o repórter e a informante.

O trio funciona porque não tenta transformar a história em um espetáculo de grandes discursos individuais. São personagens que precisam conversar, analisar informações, negociar decisões e lidar com as consequências de suas escolhas. Isso combina com a proposta do longa e ajuda a manter a narrativa convincente.

O Capitólio como ponto de ruptura

Um dos momentos mais fortes de O Outro Lado das Redes envolve a invasão do Capitólio dos Estados Unidos, em 6 de janeiro de 2021. O filme retoma os acontecimentos e discute o papel das redes sociais na circulação de mensagens que ajudaram a mobilizar apoiadores de Donald Trump.

A sequência chama atenção porque transforma em algo concreto vários dos problemas apresentados anteriormente. A discussão sobre recomendações, publicações políticas e desinformação deixa de parecer um debate abstrato sobre os limites de uma plataforma e passa a estar relacionada a um acontecimento histórico.

O filme também dramatiza as discussões internas sobre o que fazer com as publicações de Trump. Em vez de simplesmente apresentar uma decisão pronta, ele mostra os dilemas e as divergências envolvendo a possibilidade de remover conteúdos de um presidente que ainda estava no exercício do cargo.

É uma das partes mais incômodas da história justamente porque expõe o tamanho da responsabilidade que uma empresa privada pode assumir quando suas decisões interferem na circulação de mensagens políticas. A questão não é apenas se uma publicação específica deveria continuar no ar, mas quais critérios são utilizados e quais consequências surgem quando uma plataforma tem influência sobre a mobilização de milhões de pessoas.

O filme não precisa sugerir que as redes sociais, sozinhas, explicam tudo o que aconteceu naquele dia. O que ele evidencia é que elas fazem parte de um ecossistema político e informacional que pode facilitar a circulação de narrativas extremistas e a organização de movimentos de grande escala.

Uma discussão que não termina nos Estados Unidos

A discussão sobre o poder das big techs fica ainda mais importante quando percebemos que não se trata de um problema restrito aos Estados Unidos. O filme mostra como os interesses de grandes empresas de tecnologia podem se aproximar de projetos políticos que prometem menos obstáculos para sua atuação.

Isso não significa que o longa prove a existência de um plano secreto da Meta para promover determinado candidato ou partido. A questão é mais estrutural: empresas que concentram poder econômico, controlam plataformas de comunicação e dependem do engajamento dos usuários têm interesses próprios. Esses interesses precisam ser considerados quando discutimos suas relações com governos e movimentos políticos.

A proximidade pública entre executivos de grandes empresas de tecnologia e o governo Trump também ajuda a contextualizar esse debate. Quando companhias com tamanho poder econômico participam ativamente do ambiente político, torna-se necessário perguntar como suas prioridades podem influenciar as decisões que afetam milhões de pessoas.

O Brasil já teve exemplos preocupantes de redes coordenadas de desinformação e de mobilização extremista nas plataformas. Em 2022, uma reportagem do Aos Fatos, baseada em documentos internos da Meta, mostrou que funcionários da empresa haviam recomendado remover ou reduzir o alcance de uma rede brasileira conhecida como Ordem Dourada do Brasil, apontada nos documentos como coordenada e associada à disseminação de conteúdos desinformativos e antidemocráticos. O caso ajuda a ilustrar que a própria empresa já identificou problemas desse tipo em comunidades brasileiras, embora cada situação precise ser analisada a partir de suas evidências específicas.

E não precisamos olhar apenas para casos anteriores para perceber como essa discussão conversa com a nossa realidade. Estamos vendo isso na pele durante as eleições brasileiras de 2026. Na minha percepção, conteúdos de figuras da extrema direita e de deputados alinhados à direita circulam com engajamento enorme e parecem bater recordes de visualizações, principalmente no Instagram. Enquanto isso, publicações de esquerda parecem ter muito mais dificuldade para chegar ao público, perdem alcance e deixam de ser entregues. Também há relatos de contas suspensas e conteúdos removidos sem aviso prévio ou uma justificativa que faça sentido para quem foi afetado.

Essa preocupação não está restrita a experiências individuais. Em outubro, a campanha de Luiz Inácio Lula da Silva acionou o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) acusando a Meta de restringir o alcance de conteúdos ligados à sua candidatura enquanto publicações associadas a Flávio Bolsonaro teriam recebido distribuição desproporcional. O tribunal pediu esclarecimentos à empresa. Separadamente, um levantamento da organização CTRL+Z reuniu mais de 1.100 relatos de restrições durante a campanha, incluindo redução de alcance, limitações de funcionalidades, remoções e banimentos de contas. A Meta, por sua vez, apontou problemas técnicos e nega tratamento desigual. São denúncias que precisam ser investigadas, e não uma conclusão definitiva de que houve favorecimento deliberado da empresa. Ainda assim, a quantidade de relatos e a falta de transparência sobre critérios de distribuição e moderação mostram por que esse assunto merece atenção. Agência Brasil e Folha de S.Paulo.

Quando uma empresa concentra tanto poder sobre o que as pessoas veem, a falta de transparência sobre seus algoritmos e suas decisões de moderação se torna uma questão democrática. Não é necessário provar que toda diferença de alcance é fruto de uma intenção política para reconhecer que o público precisa de explicações claras, mecanismos de recurso e critérios consistentes. O problema se agrava quando usuários não conseguem entender por que uma publicação foi removida, por que uma conta foi suspensa ou por que um conteúdo deixou de chegar às pessoas que costumavam acompanhá-lo.

É justamente por isso que O Outro Lado das Redes parece tão próximo da nossa realidade. O poder das plataformas não está apenas em conectar pessoas, mas também em influenciar quais ideias ganham visibilidade e quais correm o risco de desaparecer do debate público. Em um período eleitoral, essa responsabilidade se torna ainda mais evidente.

Assistir ao filme no Brasil de 2026

Assistir a O Outro Lado das Redes na Mostra de Cinema de São Paulo tornou a experiência ainda mais especial. Estive na sessão realizada durante a coletiva de imprensa que apresentou a edição deste ano do evento, no Espaço Petrobras de Cinema, na região da Rua Augusta.

A exibição aconteceu em 3 de outubro, na véspera do primeiro turno das eleições de 2026. Naquele mesmo dia, Lula realizou um grande comício na Avenida Paulista. Quando cheguei ao cinema, o espaço estava cheio de apoiadores do presidente, e durante o filme era possível ouvir algumas falas vindas de longe.

A coincidência tornou a sessão especialmente curiosa. Na tela, estávamos acompanhando uma história sobre como as redes sociais podem influenciar o debate público e contribuir para a mobilização política. Fora da sala, a cidade vivia um momento decisivo de uma eleição em que as plataformas digitais também ocupavam um lugar importante na comunicação entre candidatos e eleitores.

O Brasil já teve sua própria experiência traumática com a invasão das sedes dos Três Poderes, em 8 de janeiro de 2023. As investigações sobre os ataques, a mobilização que os antecedeu e a chamada minuta do golpe tornaram ainda mais urgente a discussão sobre a circulação de desinformação, a organização de grupos extremistas e os limites da atuação das plataformas digitais.

É claro que os contextos brasileiro e norte-americano não são idênticos, e seria simplista tratar todos esses acontecimentos como se tivessem uma única causa. Ainda assim, existe uma conexão importante entre eles: em sociedades democráticas, as redes sociais se tornaram parte central da disputa política, e suas decisões podem ter consequências que ultrapassam em muito o ambiente virtual.

Assistir ao filme naquele momento me fez pensar ainda mais sobre o tamanho desse poder e sobre a dificuldade de fiscalizar empresas que controlam ferramentas tão presentes no cotidiano. A experiência também reforçou a importância de discutir como essas plataformas operam, quais responsabilidades devem assumir e de que maneira podem ser cobradas quando suas decisões afetam o debate público.

Uma história muito maior que o Facebook

No fim, O Outro Lado das Redes deixa claro que não podemos tratar as redes sociais como ferramentas neutras, separadas dos interesses de quem as controla. Por trás de cada recomendação, de cada anúncio e de cada decisão de moderação, existe uma estrutura empresarial que precisa prestar contas sobre suas escolhas. Isso não significa presumir que toda diferença de alcance seja resultado de uma conspiração, mas reconhecer que a falta de transparência abre espaço para desconfiança e possíveis abusos. Em um cenário no qual a circulação de informações pode influenciar eleições e mobilizar sociedades inteiras, cobrar responsabilidade das big techs não é uma discussão secundária: é uma necessidade democrática.

Nota: 5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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