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Cara-de-Barro segue os passos de Coringa, mas não vai tão longe (Crítica)

Cara-de-Barro é o terceiro filme do novo Universo DC (DCU), comandado por James Gunn e Peter Safran. Dirigido por James Watkins, conhecido por trabalhos como A Mulher de Preto e Não Fale o Mal, o longa representa uma incursão da DC Studios no terror corporal, explorando a origem de um dos vilões do Batman. O filme estreou nos cinemas brasileiros em 22 de outubro de 2026.

Com roteiro de Mike Flanagan e Hossein Amini, a história acompanha Matt Hagen (Tom Rhys Harries), um ator que consegue deixar para trás uma infância difícil em Gotham City e conquistar espaço em Hollywood. Entretanto, sua trajetória é interrompida quando um criminoso o deixa com o rosto desfigurado. Desesperado para recuperar sua aparência e carreira, Matt procura um tratamento experimental que provoca consequências físicas e psicológicas devastadoras.

O elenco também conta com Naomi Ackie, Max Minghella, David Dencik e Eddie Marsan. A trilha sonora é assinada por Volker Bertelmann, compositor vencedor do Oscar por Nada de Novo no Front e do recente Conclave.

Crítica – Cara-de-Barro

Uma história de origem que segue a cartilha de Coringa

A primeira impressão que tive de Cara-de-Barro foi a de estar assistindo a uma produção que tenta reproduzir a fórmula de Coringa (2019). Embora os personagens e suas histórias sejam diferentes, as semelhanças entre os dois filmes são evidentes, tanto na construção narrativa quanto em algumas escolhas técnicas.

Assim como o longa protagonizado por Joaquin Phoenix, Cara-de-Barro utiliza um vilão do universo do Batman para contar uma história de origem marcada por traumas, sofrimento e pela influência de uma sociedade que contribui para a transformação de seu protagonista.

Em Coringa, acompanhamos Arthur Fleck sendo constantemente humilhado e maltratado por pessoas ao seu redor. Suas relações familiares, profissionais e sociais são fundamentais para entendermos sua transformação. Já em Cara-de-Barro, a trajetória de Matt Hagen envolve diferentes formas de violência, abandono e traição, especialmente por parte de criminosos, pessoas próximas e daqueles que deveriam ajudá-lo.

Apesar das particularidades de cada história, ambos os filmes trabalham a ideia de que seus protagonistas são moldados pelas experiências traumáticas que enfrentam. A sociedade exerce um papel importante na construção dos monstros que eles eventualmente se tornam.

As coincidências também aparecem na presença de um interesse amoroso, na maneira como os personagens são apresentados e até mesmo no ritmo da montagem. A construção da atmosfera e o uso da trilha sonora também evocam sensações semelhantes.

Entretanto, considero que Coringa executa essa proposta com muito mais qualidade. O longa de Todd Phillips apresenta um roteiro mais elaborado, uma direção mais marcante e atuações significativamente superiores.

Isso não significa que Cara-de-Barro seja ruim. Pelo contrário, considero um bom filme, com uma proposta interessante e uma abordagem honesta. O problema é que, ao seguir uma fórmula tão semelhante à de uma produção que considero uma das melhores adaptações de quadrinhos já realizadas, suas limitações acabam ficando ainda mais evidentes.

Um roteiro previsível e com pouca sutileza

Um dos principais problemas de Cara-de-Barro está em seu roteiro. Embora a premissa seja interessante, especialmente por explorar um personagem que ainda não recebeu tanto destaque nas adaptações cinematográficas da DC, o desenvolvimento da história apresenta situações excessivamente previsíveis.

O filme também demonstra pouca sutileza na maneira como trabalha suas metáforas.

Ao longo da narrativa, Matt Hagen menciona repetidamente que encontrou na atuação uma maneira de escapar de seu passado e esconder seus próprios demônios. Para ele, interpretar outras pessoas representa a possibilidade de abandonar a vida difícil que teve e assumir uma identidade diferente.

A relação dessa ideia com os poderes que o personagem desenvolverá posteriormente é bastante evidente. Afinal, sua transformação física permitirá justamente que ele assuma a aparência de outras pessoas.

É uma metáfora interessante, mas que poderia ser trabalhada de maneira muito mais cuidadosa. O roteiro insiste tanto nessa associação que acaba antecipando aquilo que pretende explorar. Em vez de permitir que o espectador interprete os simbolismos da história, o filme praticamente entrega seus significados a todo momento.

É nesse aspecto que a comparação com Coringa se torna ainda mais desfavorável. No filme de 2019, muitas das metáforas e reflexões são construídas com maior sutileza, permitindo diferentes interpretações sem que o roteiro precise explicá-las constantemente.

Cara-de-Barro possui boas ideias, mas parece não confiar suficientemente na capacidade do espectador de compreendê-las.

Atuações e direção poderiam elevar ainda mais o resultado

Outro aspecto que considero problemático são as atuações.

Não acredito que o elenco de Cara-de-Barro seja necessariamente ruim. Entretanto, tenho a impressão de que a história poderia alcançar um nível dramático muito superior caso contasse com interpretações mais marcantes.

A proposta exige que o público acompanhe o sofrimento de Matt Hagen, compreenda suas motivações e se envolva emocionalmente com sua transformação. Para isso, o trabalho dos atores é fundamental.

Na minha visão, falta ao elenco a intensidade necessária para transformar esses conflitos em momentos verdadeiramente memoráveis. Essa diferença fica ainda mais evidente quando pensamos no impacto da atuação de Joaquin Phoenix em Coringa.

A direção de James Watkins também deixa a sensação de que o material poderia ter sido mais bem aproveitado.

Isso se estende às sequências de ação e aos momentos em que o protagonista utiliza suas habilidades. O Cara-de-Barro possui poderes extremamente interessantes para o cinema, especialmente pela capacidade de modificar sua aparência e assumir a identidade de outras pessoas.

O longa consegue explorar essas possibilidades em algumas cenas criativas, mas raramente desenvolve todo o potencial que elas oferecem.

A sensação que tive durante boa parte da experiência foi justamente essa: assistir a uma sequência interessante e, imediatamente depois, pensar em como ela poderia ter sido ainda melhor se tivesse recebido uma direção mais inventiva ou um desenvolvimento mais elaborado.

Os efeitos visuais também seguem essa lógica. Não considero que sejam ruins, tampouco encontrei momentos em que sua qualidade comprometesse completamente a experiência. Entretanto, são efeitos relativamente simples, que poderiam apresentar resultados mais impressionantes.

No geral, Cara-de-Barro parece ser uma produção de orçamento mais contido, algo que não representa necessariamente um problema. Ainda assim, existe uma diferença entre trabalhar bem com poucos recursos e deixar a sensação constante de que determinadas ideias poderiam ter sido melhor executadas.

A trilha sonora é um dos grandes destaques

Entre os aspectos positivos, a trilha sonora merece uma atenção especial.

Composta por Volker Bertelmann, responsável também pelas músicas de Conclave e vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original por Nada de Novo no Front, ela é um dos elementos que mais contribuem para a construção da atmosfera do filme.

O trabalho musical ajuda a transmitir a tensão e o sofrimento do protagonista, acompanhando sua deterioração física e emocional.

Mais uma vez, considero inevitável estabelecer uma comparação com Coringa, cuja trilha sonora também desempenha um papel fundamental na narrativa.

Embora sejam trabalhos diferentes, ambos utilizam a música para aprofundar a sensação de desconforto e acompanhar a transformação de seus personagens.

Em Cara-de-Barro, esse é um dos aspectos técnicos que considero mais bem resolvidos. A trilha consegue acrescentar intensidade a determinadas sequências, mesmo quando outros elementos da produção não atingem o mesmo nível.

Uma Gotham pouco marcante e praticamente desconectada do DCU

Além dos problemas relacionados ao filme individualmente, existe outra questão que considero ainda mais preocupante: o papel de Cara-de-Barro na construção do novo Universo DC.

O longa é a terceira produção cinematográfica desse universo e apresenta pela primeira vez sua versão de Gotham City em live-action.

Entretanto, a cidade retratada é extremamente simples e pouco marcante visualmente. Não existe uma estilização particularmente interessante ou elementos que ajudem a estabelecer uma identidade própria para essa versão de Gotham. Em alguns momentos, inclusive, sua ambientação lembra a cidade apresentada em Coringa.

Considerando a importância de Gotham para o universo do Batman, esperava uma representação que aproveitasse melhor toda a riqueza desse cenário.

Outro problema é a ausência de referências mais significativas aos personagens que fazem parte desse universo.

Não esperava uma aparição do Batman, especialmente considerando que o personagem ainda não foi apresentado oficialmente em live-action dentro do novo DCU. Entretanto, isso não impediria que o filme mencionasse sua existência ou apresentasse outros elementos associados à mitologia de Gotham.

Uma referência a um vigilante que atua nas ruas da cidade, uma menção ao comissário Jim Gordon ou até mesmo a presença de personagens como Barbara Gordon já ajudaria a estabelecer conexões.

O mesmo vale para os inúmeros criminosos associados à cidade, como Salvatore Maroni, Carmine Falcone e o Pinguim.

O universo do Batman é extremamente rico, e existem diferentes maneiras de aproveitá-lo sem transformar uma produção em uma sequência interminável de participações especiais.

Entendo perfeitamente que Cara-de-Barro precisa funcionar como uma obra independente. Um filme não deve depender exclusivamente de referências, participações especiais ou fan service para justificar sua existência.

Entretanto, quando estamos falando de um universo compartilhado ainda em construção, considero que essas conexões também desempenham um papel importante.

Elas ajudam a estabelecer a continuidade, despertam a curiosidade do público e criam expectativas para as próximas produções.

Cara-de-Barro praticamente não oferece nada disso. O filme não apresenta conexões mais significativas com o restante do DCU e sequer utiliza uma cena pós-créditos para estabelecer possibilidades futuras.

Consequentemente, embora funcione como uma história individual, deixa pouco para aqueles que acompanham a construção desse universo.

A DC realmente precisava de Cara-de-Barro neste momento?

Essa talvez seja minha maior preocupação com o lançamento.

O novo Universo DC começou com Superman, um bom filme que conseguiu renovar as esperanças de muitos fãs. Embora eu não considere uma produção inquestionável, foi um começo positivo para a nova fase comandada por James Gunn.

Entretanto, os projetos seguintes não conseguiram manter o mesmo entusiasmo.

A segunda temporada de Pacificador apresentou um resultado abaixo do esperado, enquanto Supergirl acabou se tornando uma grande decepção, tanto comercialmente quanto em sua qualidade cinematográfica. Isso é especialmente frustrante considerando o potencial da história que o filme adaptou.

Já Lanternas, série que analisei anteriormente no Multi Nerdz, terminou com um saldo positivo, mas também apresentou problemas importantes. Embora tenha seus méritos, não considero que seja uma produção capaz de impulsionar significativamente o interesse pelo novo universo.

É nesse contexto que considero questionável a decisão de lançar Cara-de-Barro tão cedo.

A DC atravessa um momento complicado há anos. Os problemas do antigo universo cinematográfico, a necessidade de um reboot e as mudanças envolvendo a Warner contribuíram para uma situação em que o estúdio precisa reconquistar a confiança do público.

E, para isso, acredito que sejam necessárias produções verdadeiramente marcantes.

A DC precisa de grandes filmes, com personagens importantes e qualidade suficiente para gerar entusiasmo. Precisa de projetos que façam o público querer acompanhar os próximos capítulos desse universo.

Não estou dizendo que personagens menos conhecidos não mereçam receber suas próprias produções. Pelo contrário, acho interessante que o estúdio explore gêneros diferentes e dê espaço para histórias menos convencionais.

Entretanto, é difícil entender a prioridade de um filme do Cara-de-Barro enquanto o Batman do DCU ainda não possui um intérprete definido e personagens fundamentais, como a Mulher-Maravilha, continuam sem um protagonismo claro nessa nova fase.

O filme pode até se mostrar financeiramente viável por conta de seu orçamento aparentemente mais modesto. Mas, em termos de construção de universo, não consigo enxergar uma contribuição significativa.

Minha impressão é que Cara-de-Barro dificilmente terá a força necessária para permanecer no imaginário popular como Coringa conseguiu. Ao mesmo tempo, também não oferece elementos suficientes para impulsionar as próximas produções da DC.

É justamente essa combinação que considero problemática.

A liberdade criativa de James Gunn e os desafios de construir um universo

Uma comparação que vejo frequentemente é a de que o Universo Cinematográfico da Marvel também começou com personagens menos populares e demorou anos para apresentar figuras como o Homem-Aranha.

Entretanto, essa comparação desconsidera uma diferença fundamental entre os dois estúdios.

Quando a Marvel iniciou seu universo compartilhado, em 2008, não possuía os direitos cinematográficos de alguns de seus personagens mais populares, incluindo o Homem-Aranha e os X-Men.

O Homem-Aranha, por exemplo, só passou a integrar o MCU em 2016, com Capitão América: Guerra Civil, depois de um acordo entre Marvel Studios e Sony Pictures.

A Marvel construiu seu universo utilizando os personagens que tinha disponíveis. A DC, por outro lado, já possui acesso aos seus principais heróis e vilões.

Por isso, considero que a estratégia deveria ser diferente.

Também valorizo muito a liberdade criativa que James Gunn parece oferecer aos profissionais envolvidos nas produções do DCU. É extremamente positivo termos filmes com propostas diferentes, diretores com identidades próprias e histórias que não precisem seguir exatamente a mesma estrutura.

Entretanto, acredito que construir um universo compartilhado exige algum nível de planejamento e coordenação.

Essa é uma questão frequentemente debatida em relação à Marvel Studios e ao trabalho de Kevin Feige, que muitas vezes estabelece determinadas diretrizes para manter a continuidade de suas produções.

Embora esse modelo também apresente problemas e possa limitar escolhas criativas, considero que alguma forma de coordenação é necessária para que um universo cinematográfico funcione.

No caso da DC, tenho a impressão de que essa conexão entre os projetos ainda não está acontecendo de maneira satisfatória.

Outro exemplo recente envolve as notícias sobre o desenvolvimento de uma série da Hera Venenosa. Apesar de a personagem pertencer ao universo de Gotham, o projeto estaria separado da continuidade de The Batman, de Matt Reeves.

Isso me parece uma oportunidade desperdiçada, especialmente considerando o sucesso de Pinguim, que demonstrou como personagens secundários podem protagonizar boas histórias dentro de um universo já estabelecido.

Uma série da Mulher-Gato, por exemplo, poderia explorar a personagem apresentada em The Batman e ampliar aquela narrativa, mantendo a identidade que tornou esse universo tão interessante.

Ao mesmo tempo, no novo DCU, teremos produções centradas em vilões de Gotham antes mesmo de conhecermos o Batman que fará parte dessa continuidade.

Não considero que essas decisões sejam necessariamente ruins de maneira isolada. Minha preocupação está na estratégia geral.

A DC possui personagens extraordinários e um potencial gigantesco, mas ainda precisa demonstrar que consegue transformar tudo isso em um universo verdadeiramente envolvente.

Conclusão: um bom filme que poderia ser muito mais

No fim das contas, considero Cara-de-Barro um bom filme. É uma produção honesta, com uma premissa interessante, algumas sequências criativas e uma excelente trilha sonora.

Entretanto, também é um longa que deixa a sensação constante de que poderia ser muito melhor.

O roteiro previsível, a falta de sutileza, as atuações pouco marcantes e uma direção que nem sempre explora todo o potencial do personagem impedem que a produção alcance um resultado mais expressivo.

A comparação com Coringa é inevitável, especialmente pelas semelhanças narrativas e técnicas. Entretanto, Cara-de-Barro não consegue reproduzir a mesma qualidade da obra de 2019.

Analisado individualmente, é um filme competente, mas que dificilmente se destaca entre as melhores adaptações de quadrinhos.

Já quando pensamos em seu papel dentro do novo Universo DC, o resultado é ainda mais decepcionante.

Não é uma questão de exigir que todo filme tenha participações especiais ou prepare diretamente a próxima produção. O problema é que, em um momento em que a DC precisa construir uma identidade forte e recuperar a confiança do público, Cara-de-Barro parece acrescentar muito pouco a esse objetivo.

Talvez minhas preocupações com o futuro da DC façam as críticas parecerem mais duras do que deveriam. Mas elas surgem justamente porque quero ver esse universo dar certo.

Quero que a DC produza grandes filmes, aproveite seus personagens e estabeleça uma concorrência à altura da Marvel. Afinal, quanto mais fortes forem os dois estúdios, maiores serão os incentivos para que ambos entreguem produções cada vez melhores.

Cara-de-Barro mostra que existem boas ideias e espaço para experimentar diferentes gêneros dentro do DCU. Mas boas ideias, por si só, não são suficientes.

É um bom filme que segue a cartilha de Coringa, sem alcançar a mesma excelência. E, para um universo que precisa urgentemente conquistar o público, ser apenas bom talvez não seja suficiente.

Nota: 3,5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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