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Lanternas tem boas ideias, mas falta coragem para ir além (Crítica)

Baseada nos personagens da DC Comics, Lanternas acompanha o novato John Stewart (Aaron Pierre) e o veterano Hal Jordan (Kyle Chandler), dois policiais intergalácticos que acabam envolvidos em um mistério terrestre ao investigarem um assassinato no interior dos Estados Unidos. Ao longo de oito episódios, a produção desenvolve a investigação enquanto explora a relação entre os dois Lanternas e os acontecimentos que cercam o caso.

A série foi criada por Chris Mundy, Damon Lindelof e Tom King, com Mundy também atuando como showrunner. O trio reúne nomes com histórico importante tanto na televisão quanto nos quadrinhos: Mundy trabalhou em Ozark e True Detective: Terra Noturna; Lindelof é um dos criadores de Lost e comandou produções como The Leftovers e Watchmen; enquanto King é conhecido por trabalhos premiados nos quadrinhos da DC, incluindo Mister Miracle e Supergirl. A produção é da HBO em associação com a Warner Bros. Television e a DC Studios, com James Gunn e Peter Safran também entre os produtores executivos.

No elenco, além de Aaron Pierre — conhecido por Rebel Ridge e por dar voz a Mufasa em Mufasa: O Rei Leão — e Kyle Chandler, vencedor do Emmy por Friday Night Lights, estão Kelly Macdonald, Garret Dillahunt, Poorna Jagannathan e Ulrich Thomsen. A primeira temporada de Lanternas já foi concluída, e todos os oito episódios estão disponíveis na HBO Max.

A crítica a seguir contém spoilers da temporada completa de Lanternas.

Crítica – Lanternas

O peso de carregar o novo DCU

Desde antes de sua estreia, Lanternas carregava uma responsabilidade que, na minha visão, vai muito além de simplesmente apresentar Hal Jordan e John Stewart ao novo Universo DC. Hoje, cada nova produção da editora chega precisando se provar.

Depois de todos os problemas enfrentados pelo antigo universo da DC nos cinemas, Superman serviu como um respiro e mostrou que esse recomeço tinha potencial, mesmo sem ser um filme perfeito. Mas os lançamentos seguintes voltaram a levantar dúvidas. A segunda temporada de Pacificador, para mim, ficou muito abaixo do esperado, enquanto Supergirl foi outra grande decepção e ainda encontrou dificuldades nas bilheterias.

Tudo isso faz com que cada projeto do DCU passe a carregar um peso maior. E Lanternas, sendo uma das principais produções desse universo e apresentando personagens extremamente importantes para o futuro da franquia, precisava entregar algo realmente marcante.

Ao final dos oito episódios, considero que o saldo da série é positivo. Mas também sinto que ela não conseguiu atingir o nível que precisava.

Uma ótima premissa que nunca chega ao seu potencial

O principal acerto de Lanternas está justamente em sua premissa.

Em vez de começar com uniformes coloridos, grandes batalhas espaciais e uma enorme quantidade de alienígenas, a produção resolve colocar dois policiais intergalácticos investigando um assassinato em uma pequena cidade do interior dos Estados Unidos.

Desde que o projeto começou a ser divulgado, a comparação mais utilizada era com True Detective. E é fácil entender o motivo. Existe a intenção de transformar os Lanternas em protagonistas de uma investigação policial sombria, cercada por segredos, personagens suspeitos e uma atmosfera de constante estranheza.

A ideia é ótima.

O problema é que Lanternas nunca consegue alcançar o nível das produções que claramente servem como referência para ela. True Detective estabeleceu um padrão altíssimo para esse tipo de história, e até séries como Mare of Easttown mostraram como desenvolver um mistério ao mesmo tempo em que fazem o público se envolver profundamente com seus personagens.

É justamente aí que Lanternas começa a perder força.

John Stewart e Hal Jordan demoram para conquistar

A temporada começa explorando principalmente John Stewart, para posteriormente abrir mais espaço para Hal Jordan. Os dois possuem conflitos, traumas e características suficientes para sustentar a história, mas a série demora demais para fazer com que realmente nos importemos com eles.

E, em alguns momentos, fica até a dúvida se essa conexão chega de fato a acontecer.

A produção faz mudanças em relação às versões dos personagens nos quadrinhos, principalmente envolvendo a origem de John e alguns elementos da personalidade de Hal. Para mim, isso nunca foi um problema.

Não sou puritano quando o assunto é adaptação. Uma série, filme ou jogo não precisa reproduzir exatamente aquilo que está nas páginas dos quadrinhos. Se existe uma nova interpretação interessante para aquele personagem, mude. Adapte. Reconstrua.

A única obrigação é fazer isso funcionar.

Também não seria justo avaliar Lanternas pela fidelidade aos quadrinhos porque não sou um grande leitor das histórias dos personagens. Minha análise parte daquilo que a própria série apresenta. E, olhando apenas para o que está na tela, sinto que John e Hal poderiam ter sido personagens muito mais bem construídos ao longo desses oito episódios.

Os atores, pelo menos, ajudam bastante. Aaron Pierre e Kyle Chandler funcionam juntos e conseguem sustentar alguns dos melhores momentos da temporada, principalmente quando a produção desacelera e deixa os dois simplesmente conversarem e confrontarem suas diferenças.

Pouco poder nunca foi o verdadeiro problema

Uma das reclamações mais frequentes durante a exibição de Lanternas envolvia a pequena presença dos poderes. Havia pouco verde, poucos elementos cósmicos, quase nenhum alienígena e uma escala muito menor do que normalmente associamos aos Lanternas Verdes.

Essa nunca foi uma crítica que me incomodou.

Se a proposta é fazer algo diferente, mais contido e mais próximo de um suspense policial, tudo bem. Não é necessário transformar cada episódio em uma batalha espacial simplesmente porque estamos falando dos Lanternas.

O problema aparece quando a própria série decide mostrar aquilo que vinha evitando.

O fechamento do primeiro grande arco em Rushville é o maior exemplo disso. Quando Lanternas finalmente abraça mais a ação e os poderes, o resultado não empolga. As cenas são pouco inspiradas, os poderes não possuem o impacto que deveriam e todo o desfecho parece menor do que aquilo que a temporada vinha construindo.

Foi, inclusive, um dos momentos de que menos gostei durante toda a série.

E é aí que surge uma contradição importante: ter pouca ação nunca foi o problema. O problema é que, quando Lanternas resolve fazer ação, ela também não consegue fazer isso particularmente bem.

Um novo mistério que passa rápido demais

Depois do fechamento de Rushville, Lanternas praticamente reorganiza sua narrativa ao redor de um novo mistério: John tentando entender o que realmente aconteceu com Hal Jordan.

Inicialmente, essa mudança funcionou para mim.

A série conseguiu criar uma nova pergunta capaz de me fazer continuar acompanhando a história e, principalmente no primeiro episódio depois dessa virada, parecia existir ali uma oportunidade de renovar a temporada.

Mas tudo acaba acontecendo rápido demais.

Assim como no primeiro mistério, falta desenvolvimento para que algumas respostas tenham o peso necessário. A investigação avança, as revelações chegam e as resoluções acontecem, mas existe a sensação de que a série poderia ter aproveitado muito mais aquilo que tinha em mãos.

Ainda assim, o final possui bons momentos.

Ver John Stewart finalmente assumir seu lugar como Lanterna Verde e construir o próprio juramento funciona justamente porque representa a conclusão da jornada que acompanhamos desde o primeiro episódio. A participação de Guy Gardner também é bem-vinda e ajuda a reforçar a conexão de Lanternas com o restante do DCU.

São momentos que contribuem para que eu termine a temporada com uma impressão positiva, mesmo reconhecendo todos os seus problemas.

Uma série sobre coragem que teve medo

Talvez a maior ironia de Lanternas seja que uma produção baseada em personagens conhecidos justamente por superar o medo parece ter passado boa parte de sua temporada com medo de sua própria identidade.

A série teve medo de ser completamente pé no chão.

E também teve medo de abraçar completamente aquilo que existe de fantástico nos Lanternas Verdes.

Se a intenção era fazer um True Detective dentro do universo da DC, poderia ter ido ainda mais fundo nisso. Poderia ter abraçado completamente o suspense, a investigação, os diálogos e a construção dos personagens, sem qualquer preocupação em entregar momentos tradicionais de uma produção de super-herói.

Por outro lado, quando decidiu mostrar os poderes dos personagens, também pareceu insegura. Faltaram criatividade, impacto e cenas de ação capazes de justificar essa mudança de escala.

Lanternas permanece presa no meio dessas duas possibilidades.

E talvez esse tenha sido o seu maior erro.

Existe uma boa série aqui. Existe uma excelente premissa, dois atores competentes no centro da história, bons episódios e momentos que mostram o potencial desses personagens dentro do novo DCU. Por isso, o saldo final ainda é positivo.

Mas existia a oportunidade de fazer algo muito maior.

Em um momento particularmente delicado para a DC e para a própria Warner, em meio a mais uma enorme transição corporativa, Lanternas precisava chegar não apenas como uma produção competente, mas como uma afirmação.

Não conseguiu.

No fim, uma série sobre personagens cujo principal ensinamento é superar o medo acabou sendo, ela própria, um pouco covarde. Lanternas teve medo de ser completamente diferente e, ao mesmo tempo, medo de assumir tudo aquilo que torna os Lanternas Verdes especiais.

E faltou justamente a coragem necessária para escolher um caminho e seguir por ele até o fim.

Nota: 3,5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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