Euphoria perde o glitter, o neon e a sua própria essência na terceira e última temporada (Crítica)
A jornada até o lançamento da terceira temporada de Euphoria foi, indiscutivelmente, tão caótica e dramática quanto a própria série da HBO. Após um longo hiato que testou a paciência dos fãs, a aclamada produção criada por Sam Levinson retornou às telas carregando o peso de ser um dos maiores fenômenos da cultura pop recente. Os bastidores foram marcados por uma tempestade perfeita de obstáculos: atrasos sucessivos causados pelas greves de roteiristas e atores em Hollywood, intensas reescritas de roteiro e tragédias irreparáveis, como o falecimento precoce de Angus Cloud, intérprete do querido Fezco, e do produtor Kevin Turen. Além disso, a saída de Barbie Ferreira do elenco e os constantes rumores de tensões criativas entre Levinson e Zendaya a respeito do tom da história alimentaram manchetes durante meses.
O desafio logístico também foi um dos maiores inimigos da produção. Nesse meio-tempo, o elenco principal se transformou em um verdadeiro esquadrão de superestrelas globais com agendas disputadíssimas. Nomes como Zendaya, Sydney Sweeney e Jacob Elordi dominaram as bilheterias dos cinemas, o que tornou a reunião de todos no set um quebra-cabeça complexo. Para contornar o inevitável envelhecimento dos atores e a necessidade de renovar a trama, a HBO e a equipe criativa optaram por uma solução drástica: um salto temporal significativo.
Deixando os armários e os corredores dramáticos do colégio East Highland no passado, a sinopse oficial desta terceira fase acompanha a transição abrupta dos protagonistas para o mundo real. O enredo se propõe a explorar as complexidades do amadurecimento, focando em como Rue, Cassie, Nate, Jules (vivida por Hunter Schafer), Maddy (Alexa Demie) e Ali (Colman Domingo) enfrentam as responsabilidades, as consequências de seus vícios e os traumas enraizados agora que a rede de proteção e a bolha adolescente não existem mais.
Crítica – Euphoria 3ª Temporada
Quando a terceira temporada de Euphoria estreou, houve um choque imediato de expectativas. A estética onírica, os neons pulsantes e a trilha sonora inconfundível do Labrinth deram lugar a um tom mais bruto, opaco e despido de glamour. No início, eu fui um dos defensores dessa mudança: a vida pós-ensino médio não é um videoclipe estiloso. Ela é dura, sem filtro e, muitas vezes, sem trilha sonora. O paralelo traçado com o mundo real adulto parecia um acerto narrativo brilhante, abraçando inclusive uma temática que me remetia bastante às histórias de GTA — o que, na minha cabeça, soava como uma evolução natural e que fazia todo o sentido. Contudo, ao longo dos episódios, essa aproximação com a crueza da realidade acabou custando caro à série, revelando que a falta de estilo também resultou, infelizmente, em uma profunda falta de fôlego.
A premissa de acompanhar como os reis do ensino médio lidam com o choque de realidade da vida adulta era promissora. Ver um personagem como Nate Jacobs, outrora o intocável valentão do colégio, penando fora de sua bolha de poder fazia todo o sentido. No entanto, o que começou como uma desconstrução interessante rapidamente se tornou repetitivo. A série perdeu seu peso dramático da metade para o final, estacionando em uma narrativa que simplesmente parou de andar. O personagem de Jacob Elordi, que agora é um indicado a Oscar, foi reduzido a um saco de pancadas do roteiro, trazido de volta apenas para sofrer até encontrar uma morte brutal e anticlimática, resultando em um arco raso e focado no castigo pelo castigo, sem um desenvolvimento real.
Se por um lado o roteiro girou em círculos com alguns, com outros ele foi omisso. Personagens fundamentais que construíram o pilar da série, como Jules e Maddy, tiveram evoluções básicas e foram criminalmente subutilizadas. O roteiro ainda forçou Maddy a tomar decisões que fogem da sua inteligência, como revelar a Alamo, o envolvimento de Rue com a polícia, servindo apenas como muleta para empurrar a trama para o desfecho trágico. Em contrapartida, o grande salto da temporada pertence a Sydney Sweeney. Após anos recebendo críticas, e muitas delas válidas, ela entregou a melhor atuação deste ano. Em uma série que conta com Zendaya no elenco principal, Sweeney conseguiu roubar os holofotes com a personagem Cassie e dar a volta por cima.
É impossível falar da obra sem mencionar Rue e o talento colossal de Zendaya. Narrativamente, o destino da protagonista tem uma coerência triste e brutal. A própria Rue já havia pontuado, na segunda temporada, que as chances de uma adolescente viciada sobreviver e ter uma vida plena eram mínimas. Sua morte por uma overdose de fentanil, após ser enganada por Alamo, é um desfecho que faz sentido nesse mundo sombrio. O problema, porém, não é o que acontece, mas como acontece. Nas temporadas anteriores, os momentos de recaída da personagem eram filmados com uma beleza trágica e um impacto estético que exigiam a catarse do espectador. Aqui, a morte ocorre no meio do episódio final e é rapidamente atropelada por uma enxurrada de outros acontecimentos, diminuindo drasticamente o peso de uma perda tão monumental. A personagem e a atriz mereciam uma despedida à sua altura, mas Rue ficou presa na mesmice durante grande parte da temporada, o que limitou as oportunidades para Zendaya brilhar como de costume.
O efeito cascata dessa morte expõe as fragilidades finais da narrativa. Além de todos os problemas já citados, a trama da religião encabeçada por Rue, e que acaba ressoando em outros personagens, também é totalmente jogada e rasa. O arco de Ali, interpretado pelo sempre excelente e desperdiçado Colman Domingo, sai dos trilhos. Seu luto e seus questionamentos são válidos, mas a decisão de pegar uma arma sem qualquer plano para ir atrás de Alamo soou completamente fora do tom. Para piorar, a traição do parceiro de Alamo, levemente justificada por um carinho por Maddy, soa como uma conveniência preguiçosa de um texto que não se deu ao trabalho de desenvolver a situação. O encerramento melancólico de Ali na fazenda até tem seus méritos visuais, mas não apaga o gosto amargo do que veio antes.
No fim das contas, a terceira temporada de Euphoria ousou ao refletir a vida adulta perdendo o neon e o glitter, mas com isso perdeu a identidade que consagrou a série. Não é o desastre absoluto que muitos pintam por aí, pois há boas ideias, atuações e escolhas lógicas de direcionamento. No entanto, com decisões forçadas, erros de caracterização e falta de peso dramático, o saldo final é inegavelmente negativo. A produção se perdeu de si mesma e deixou a sensação de que os fãs, os atores e os próprios personagens mereciam muito mais. Ao tentar imitar a dureza e a falta de encanto da vida pós-ensino médio, a narrativa esqueceu que a ficção ainda precisa, acima de tudo, manter o interesse e a graça.

Nota: 2,5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
Letterboxd | Instagram | Twitter
