Dia D pavimenta uma jornada grandiosa, mas falha em entregar um destino à altura (Crítica)
Dirigido e idealizado por Steven Spielberg, com roteiro assinado por David Koepp, Dia D (do original Disclosure Day) é a mais nova incursão da Amblin Entertainment pela ficção científica. A produção do longa fica a cargo do próprio diretor em parceria com Kristie Macosko Krieger. Para dar vida a esse grandioso projeto, a equipe técnica reúne colaboradores de longa data de Spielberg, contando com a direção de fotografia do renomado Janusz Kamiński, a montagem da editora Sarah Broshar e a trilha sonora original composta pelo icônico John Williams.
O filme apresenta um elenco de peso encabeçado por Emily Blunt no papel da meteorologista Margaret Fairchild, e Josh O’Connor como Daniel Kellner, um especialista em segurança cibernética. O time principal de atores é completado por Colin Firth, Eve Hewson, Colman Domingo e Wyatt Russell. Na trama, enquanto fenômenos inexplicáveis e estranhos sinais começam a se espalhar pelo globo, um delator arrisca sua vida para tentar expor segredos governamentais sobre o tema que foram guardados a sete chaves por décadas. Diante da prova definitiva de que a humanidade não está sozinha no universo, o pânico e o fascínio tomam conta de uma civilização forçada a confrontar o desconhecido.
Antes de passarmos para a crítica completa, gostaríamos de deixar um agradecimento muito especial à equipe da Universal Pictures Brasil pelo convite para conferir a obra na cabine de imprensa aqui em São Paulo. Dia D estreia oficialmente nos cinemas brasileiros no dia 11 de junho de 2026.
Crítica – Dia D
O cinema de Steven Spielberg sempre orbitou a fascinante e por vezes temível fronteira entre o humano e o desconhecido. Em seu mais recente trabalho, Dia D (cujo título em inglês apropriadamente remete a Disclosure Day, ou o Dia da Revelação), o lendário diretor retorna a um território temático que lhe é profundamente familiar, mas sob uma ótica ligeiramente distinta. O longa não se debruça sobre conflitos interestelares bélicos ou a mera espetacularização de um primeiro contato; seu foco é, pura e simplesmente, o macroevento da revelação — o momento exato em que a humanidade descobre que não está sozinha no universo. No entanto, ao final da sessão, o sentimento que prevalece evoca uma ironia contemporânea: a obra se sustenta muito mais pelos “amigos que fazemos pelo caminho” do que pela chegada ao destino. Trata-se de uma narrativa onde a construção da jornada se sobrepõe, de forma escancarada, à própria mensagem final do roteiro.
Um dos pontos que certamente se provará mais divisivo na obra reside na concepção visual de seus visitantes cósmicos. Spielberg abdica de qualquer inovação e abraça o design mais óbvio e saturado do imaginário popular: os clássicos seres cinzento-esverdeados, de cabeças proeminentes e olhos grandes e negros. Longe de ser um sinal de preguiça criativa, essa decisão revela-se um ato calculado. O cineasta não busca redefinir a estética alienígena, mas sim canalizar uma profunda carga de nostalgia autorreferencial.
Para o espectador, a sensação é a de assistir a uma espécie de spin-off espiritual ou a uma continuação não especificamente de E.T. – O Extraterrestre, mas de um apanhado de vários filmes clássicos sobre extraterrestres. Contudo, essa escolha caminha em uma linha tênue. Enquanto uma parcela do público pode até ser arrebatada pelo calor familiar dessa iconografia, eu confesso que me encontro do outro lado: para mim, o resultado acaba soando repetitivo e um tanto destituído de brilho próprio. O óbvio, mesmo quando executado com reverência, corre o risco de soar meramente datado ou sem vigor para as audiências contemporâneas.
É no aspecto formal, contudo, que o filme evoca a verdadeira “magia do cinema” que consagrou seu diretor. Há uma desconexão curiosa durante a experiência de assistir ao longa: mesmo quando fica evidente que não estamos inteiramente engajados com a trama ou conectados de forma profunda com o drama individual dos protagonistas, nos descobrimos subitamente emocionados. Ver lágrimas brotarem nos olhos em momentos chave da projeção — mesmo sem uma justificativa narrativa perfeitamente sólida — é o testemunho definitivo da precisão cirúrgica da montagem. O tato da edição é brilhante, sabendo exatamente como encadear planos e manipular o ritmo para arrancar uma resposta emocional visceral de quem assiste.
Essa maestria técnica, infelizmente, atua como um escudo para um roteiro que se mostra frágil. Com quase duas horas e meia de duração, o filme padece de uma cadência excessivamente longa e, por vezes, desgastante. Ao longo do percurso até o clímax, o espectador é confrontado com pequenos detalhes bobos, decisões de personagens que beiram o sem-sentido e situações cujas resoluções soam esquisitas ou convenientes demais. O texto tampouco foge de clichês previsíveis: em determinado momento, a entrega da clássica linha “Nós não estamos sozinhos” ocorre de forma tão telegrafada que anula qualquer senso de descoberta.
O grande teste de fogo se dá em seu terço final, amparado por um elenco principal que está muito bom. O grande destaque inquestionável fica para Emily Blunt, que entrega aqui a melhor atuação de sua carreira — superando inclusive seu excelente trabalho em Oppenheimer, que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Sob a força dessas interpretações, a montagem do momento da revelação torna-se um feito grandioso, retratando o evento sob uma perspectiva focada unicamente no impacto do anúncio global — uma abordagem original e raramente vista com tamanha centralidade no gênero. Porém, a resolução propõe uma escolha narrativa audaciosa e arriscada: o filme se encerra abruptamente, momentos antes de a mensagem dos extraterrestres ser finalmente revelada.
Finais abertos e a recusa em entregar respostas fáceis são opções ousadas e muito mais que bem-vindas na minha opinião. O problema aqui não reside na falta de explicações sobre a ligação dos dois personagens principais com os seres ou os motivos pelos quais foram os escolhidos para a mediação. A falha reside no fato de que, para que um anticlímax dessa magnitude funcione, a jornada que o antecede precisa ter sido absolutamente irretocável e recompensadora. Como o desenvolvimento intermediário se mostra arrastado e cansativo, terminar a epopeia sem a recebida mensagem alienígena faz com que a escolha pareça menos uma ousadia artística e mais uma amarração incompleta do roteiro. E aqui, nem a trilha sonora de John Williams parece tão inspirada.
Em resumo, Dia D é uma obra de contrastes evidentes. Se por um lado a genialidade técnica de Steven Spielberg ainda se faz presente — capaz de nos emocionar puramente através da força de sua montagem —, por outro, o longa escancara os desgastes de um roteiro redundante e de uma duração inflada. Para quem busca apenas se deixar levar pelo virtuosismo do diretor e por uma nostalgia familiar, o filme entrega passagens belíssimas. Mas para quem, assim como eu, exige uma jornada que justifique o destino, esse Dia da Revelação acaba se traduzindo em um exercício de paciência.

Nota: 3/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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