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Sonhos de Trem é lindo em cada pedacinho dele (Crítica)

Sonhos de Trem (ou Train Dreams, no original) é um daqueles filmes que marcam a temporada. Dirigido por Clint Bentley, a obra acompanha a vida de Robert Grainier (interpretado por Joel Edgerton), um trabalhador e lenhador no início do século XX que passa a vida derrubando árvores e ajudando a construir as ferrovias que cortam os Estados Unidos. Enquanto o país passa por uma rápida e implacável modernização industrial, a narrativa foca na jornada íntima desse homem simples, mostrando como ele lida com o amor e a construção de uma família ao lado de sua esposa Gladys (Felicity Jones), além do luto e das perdas inevitáveis trazidas pela passagem do tempo.

Nesta temporada de premiações, o longa conquistou seu espaço com louvor. Aclamado desde a sua estreia no Festival de Sundance, Sonhos de Trem foi eleito um dos dez melhores filmes do ano pelo National Board of Review e pelo American Film Institute (AFI). O reconhecimento também chegou para o elenco, com Joel Edgerton recebendo uma merecida indicação ao Globo de Ouro por sua performance. Coroando essa trajetória, a produção garantiu quatro indicações importantíssimas no Oscar: Melhor Filme, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Canção Original e Melhor Fotografia, celebrando o brilhante trabalho do brasileiro Adolpho Veloso.

Crítica – Sonhos de Trem

Se fosse preciso resumir Sonhos de Trem na primeira coisa que vem à cabeça, a resposta seria simples: é um filme lindíssimo. A obra encontra a sua grandeza não em reviravoltas mirabolantes, mas na simplicidade de seus detalhes, entregando uma experiência visual e narrativa que se destaca pela sua honestidade.

Para um espectador mais apressado, o ritmo pode parecer monótono, parado ou até mesmo arrastado. No entanto, essa cadência é estritamente proposital. O filme se dedica a contar a história de um trabalhador imerso em um cotidiano comum, muitas vezes triste e repetitivo. A lentidão não é um defeito, mas sim a ferramenta narrativa perfeita para nos imergir de forma realista na realidade daquela vida.

Um dos grandes trunfos da direção é o seu equilíbrio impecável. O roteiro não tem medo de mostrar o lado mais duro e as tragédias da existência, mas faz isso sem recorrer a um tom excessivamente dramático ou apelativo. Da mesma forma, ao retratar a beleza do mundo e da vida, o filme passa longe de ser piegas ou forçado. É uma narrativa justa e transparente, que expõe as dualidades de forma crua e natural.

Esse tom contido se reflete na forma como a emoção é construída. Ao contrário de produções que utilizam trilhas sonoras grandiosas, edições manipulativas ou “a cena perfeita” para arrancar lágrimas a qualquer custo, Sonhos de Trem respeita o espectador. A emoção surge da naturalidade. Ele não tenta te forçar a chorar para provar que é bom; ele atinge o seu objetivo de forma muito mais silenciosa e madura.

No centro dessa história, temos atuações muito sólidas de Joel Edgerton e Felicity Jones, que interpreta sua esposa. A dinâmica entre eles é tão bem construída que, quando a personagem dela sai de cena, a ausência é sentida de forma pesada, tanto pelo protagonista quanto por quem está do outro lado da tela.

Ainda assim, o grande destaque – e o elemento que eleva o filme a outro patamar – é a fotografia do brasileiro Adolpho Veloso. Deixando qualquer patriotismo de lado, o trabalho de câmera aqui é, sem exageros, um dos mais belos do ano. Com cenários muito comuns e uma forte presença da natureza, a estética visual remete sutilmente à atmosfera de florestas vista em obras como Hamnet, transformando o ordinário em um verdadeiro espetáculo para os olhos.

No fim das contas, Sonhos de Trem não é um filme focado em fazer você quebrar a cabeça com um roteiro mirabolante ou com coisas nunca antes vistas no cinema. Sua força está na execução impecável do simples. É uma obra realmente bonita, e como a primeira impressão já deixava claro, é um filme lindo em cada pedacinho dele.

Nota: 4/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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