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Nosso Segredo transforma o luto em uma presença impossível de ignorar (Crítica)

Nosso Segredo acompanha uma família negra que tenta reconstruir a própria rotina depois de uma perda recente. Enquanto cada integrante encontra uma maneira diferente de fugir ou lidar com o luto, Tutu, o filho caçula vivido por Efraim Santos, guarda um segredo capaz de obrigar todos a confrontarem aquilo que permanece escondido dentro daquela casa. Inspirado na peça Amores Surdos, o longa marca a estreia da atriz e dramaturga Grace Passô na direção de um longa-metragem, além de contar com roteiro assinado pela própria cineasta. O elenco reúne ainda Robert Frank, Ju Colombo, Jéssica Gaspar, Flip, Marisa Revert e Juan Queiroz, com participações de Mateus Aleluia, Tássia Reis, Gláucia Vandeveld e Nanego Lira. A fotografia é de Wilssa Esser, a direção de arte de Lucas Osório, a montagem de Gabriel Martins e Eva Randolph, enquanto Amaro Freitas assina a trilha sonora original.

Antes de chegar ao circuito comercial, Nosso Segredo teve sua estreia mundial na mostra competitiva Perspectives do Festival Internacional de Cinema de Berlim. Meses depois, tornou-se o grande vencedor do Festival de Cinema de Gramado, conquistando três Kikitos: Melhor Filme, Melhor Fotografia, para Wilssa Esser, e Melhor Direção de Arte, para Lucas Osório.

A convite da Nerds da Galáxia, EntreFilmes e da Vitrine Filmes, tivemos a oportunidade de assistir a Nosso Segredo durante sua pré-estreia oficial em São Paulo e também de bater um papo rápido com Grace Passô sobre o longa e sua estreia na direção. O vídeo da nossa entrevista com a cineasta está disponível nas redes sociais do Multi Nerdz.

Confira a nossa crítica de Nosso Segredo:

A diversidade do cinema brasileiro

Mateus Aleluia como Marcelo aparece sorrindo no banco traseiro de um carro, usando camisa azul-clara, em uma cena diurna de ‘Nosso Segredo’, com a estrada desfocada ao fundo.

Existe uma ideia repetida por muita gente de que o cinema brasileiro fala sempre sobre os mesmos assuntos. Ditadura militar e favela costumam ser os dois exemplos mais citados por quem tenta resumir uma cinematografia inteira a poucos temas. Nosso Segredo, estreia de Grace Passô na direção de um longa-metragem, é mais uma prova de como essa visão está longe da realidade.

O cinema nacional é extremamente diverso. Talvez o verdadeiro problema seja outro: muitos desses filmes simplesmente não conseguem chegar até o público. Fazer cinema no Brasil já é um desafio, mas conseguir distribuição, espaço nas salas e convencer as pessoas a assistir a essas produções pode ser ainda mais difícil. É também por isso que políticas de incentivo e mecanismos que garantam espaço ao cinema brasileiro continuam sendo tão importantes.

Dentro dessa enorme variedade de histórias está Nosso Segredo, um filme que aborda principalmente o luto, mas encontra uma maneira bastante particular de falar sobre ele.

Entre o real e o fantástico

Efraim Santos como Tutu aparece em close através de um pequeno orifício circular, com expressão séria e olhar atento, em uma cena escura de ‘Nosso Segredo’, cercado por uma moldura desfocada em tons alaranjados que cria um efeito de observação e mistério.

A trama acompanha uma família tentando seguir em frente após uma perda. Cada integrante parece processar aquela ausência de uma maneira diferente, enquanto existe alguma coisa estranha acontecendo dentro daquela casa. E um dos aspectos que mais funcionou para mim foi justamente não saber exatamente até onde o filme pretendia ir.

Durante boa parte da história, fiquei tentando entender se Grace Passô seguiria por um caminho mais realista ou se assumiria completamente o fantástico. Existe desde cedo a sensação de que alguma coisa está escondida — literalmente um segredo — e essa dúvida ajuda a sustentar o interesse mesmo quando o ritmo não acompanha.

Porque Nosso Segredo é, para mim, um filme um pouco morno durante boa parte de sua duração.

Isso não significa que seja desinteressante. Muito pelo contrário. Existem ideias interessantes espalhadas por toda a obra, mas nem sempre elas conseguem produzir o impacto emocional que parecem buscar. O filme caminha de maneira bastante contemplativa e pode exigir uma entrega maior do espectador, especialmente antes de sua reta final.

É justamente quando o tal segredo começa a ganhar forma que tudo passa a fazer mais sentido.

A partir daqui, há spoilers de Nosso Segredo.

Pretinha e a materialização do luto

Efraim Santos e Flip aparecem em uma cena escura de ‘Nosso Segredo’. À esquerda, Tutu, vivido por Efraim Santos, surge de perfil, parcialmente iluminado e com a mão próxima ao rosto. À direita, Guto, interpretado por Flip, encara algo fora de quadro com expressão tensa e concentrada. A iluminação baixa e os tons quentes reforçam o clima íntimo e dramático da cena.

A revelação do hipopótamo talvez não seja exatamente uma grande surpresa narrativa. Pelo menos para mim, não foi. Mas acredito que pensar naquele elemento apenas como uma reviravolta seria reduzir bastante aquilo que Grace Passô está construindo.

Como metáfora, ele funciona muito bem.

O hipopótamo, apelidado de Pretinha, se torna quase a materialização do luto daquela família. É enorme, ocupa espaço e está presente mesmo quando ninguém parece disposto a falar sobre ele. Cada personagem tenta lidar com essa presença de uma forma diferente, assim como cada pessoa encontra — ou não encontra — uma maneira própria de enfrentar uma perda.

E talvez a metáfora vá até além do luto.

Toda família parece carregar alguma coisa que permanece escondida. Um problema que ninguém conversa sobre, uma mágoa que nunca foi resolvida, uma ausência, um trauma ou simplesmente um assunto que todos sabem que existe, mas preferem fingir que não está ali.

Até que aquilo cresce demais para continuar sendo ignorado.

O hipopótamo de Nosso Segredo representa muito bem essa presença quase imaterial. Algo que não precisa ser mencionado constantemente porque, de alguma maneira, já tomou conta de todo o ambiente.

Quem pode demonstrar que está sofrendo?

Ju Colombo e Jéssica Gaspar aparecem em uma cena emocionante de ‘Nosso Segredo’. Em primeiro plano, uma das personagens surge de olhos fechados, visivelmente comovida, abraçando a outra em um ambiente interno com iluminação baixa e tons azulados, reforçando o tom íntimo e dramático da sequência.

Existe ainda um momento aparentemente simples, quase uma observação infantil, que para mim acrescenta outra camada bastante interessante a essa metáfora. Em determinado momento, a criança diz que Pretinha faz mal às pessoas brancas, mas não às pessoas pretas.

Pode parecer apenas uma frase boba dita por uma criança, mas acho difícil não enxergar ali uma reflexão sobre o quanto ser uma pessoa negra, especialmente em uma sociedade como a brasileira, frequentemente exige uma espécie de força permanente.

Existe uma cobrança, muitas vezes silenciosa, para suportar mais, continuar funcionando e não demonstrar determinadas fragilidades. Como se pessoas negras precisassem aprender desde muito cedo a esconder sentimentos, engolir dores e demonstrar resistência mesmo quando estão sofrendo.

E isso também pode se aplicar ao próprio luto.

A ideia de que Pretinha não faria mal às pessoas pretas pode ser interpretada justamente por esse caminho: não necessariamente porque elas não sentem aquela dor, mas porque talvez tenham aprendido a conviver com ela de uma maneira diferente. A suportá-la. A escondê-la. A continuar vivendo apesar dela.

Existe até uma espécie de brincadeira recorrente no Brasil de que “terapia é coisa de branco”, acompanhada da ideia de que pessoas negras não teriam tempo para isso. Por trás da piada existe uma questão muito mais séria: quem, historicamente, teve o privilégio de parar, olhar para dentro e admitir que está sofrendo?

É claro que isso não significa que pessoas brancas sofram mais ou que pessoas negras sintam menos. Pelo contrário. Minha leitura daquele momento é justamente a de que o filme aponta para uma desigualdade na possibilidade de demonstrar essa dor.

Algumas pessoas podem se permitir parar.

Outras aprenderam que precisam continuar.

Por isso, acho especialmente interessante que Grace Passô coloque essa ideia dentro da fala de uma criança. É algo aparentemente inocente, mas que conversa diretamente com uma série de construções sociais que acompanham aquela família e aqueles personagens.

Nesse sentido, o filme não fala apenas sobre o luto de uma família negra. Ele também sugere diferentes maneiras de sentir, esconder e sobreviver à dor.

Pantera Negra como símbolo de força

Efraim Santos como Tutu aparece em uma cena noturna de ‘Nosso Segredo’, usando uma máscara inspirada no Pantera Negra e segurando uma pequena fonte de luz diante do rosto. A iluminação azulada e o enquadramento fechado reforçam o clima de mistério e fantasia da sequência.

E, como nerd, não consigo deixar de mencionar uma referência que achei especialmente interessante. Pantera Negra é citado diretamente na história e Tutu chega a vestir a máscara do herói. Dentro do filme, o personagem aparece como um símbolo de força e como uma maneira de enfrentar os próprios medos — quase literalmente colocando uma máscara para conseguir ser mais forte.

Considerando tudo o que Nosso Segredo discute sobre negritude, medo, resistência e a necessidade de aparentar força, achei uma presença simples, mas muito bem encaixada. A referência ganha um significado que vai além de apenas mencionar um personagem popular da cultura nerd.

Ao mesmo tempo, Nosso Segredo atravessa a experiência de ser uma pessoa negra no Brasil sem transformar seus personagens exclusivamente em símbolos ou discursos. Ainda assim, para mim, é a maneira como essas experiências se cruzam com o luto e com as diferentes formas de processá-lo que constitui o coração do longa.

Um elenco que sustenta as emoções

Tássia Reis aparece em close, com a cabeça inclinada para trás e expressão de riso intenso, sob iluminação quente e esverdeada, em uma cena de ‘Nosso Segredo’ com fundo desfocado.

Outro elemento fundamental para que tudo isso funcione é o elenco.

Efraim Santos, especialmente, consegue carregar uma parte importante da história e funciona praticamente como o centro daquele universo familiar. Mas o mérito não está apenas nele. O conjunto funciona muito bem, e existe uma química verdadeira entre os atores.

As emoções não parecem existir apenas porque o roteiro determina que aquela família está sofrendo. Elas surgem nos silêncios, nos olhares, na dificuldade dos personagens de conversar e até na maneira como dividem os mesmos espaços sem necessariamente conseguirem se conectar.

A estreia de Grace Passô na direção

Retrato da diretora e roteirista Grace Passô, responsável por ‘Nosso Segredo’, posando diante de um fundo azul-escuro. Ela aparece com expressão séria, cabelos cacheados presos no alto e veste uma blusa preta e branca com estampa de zebra.

Também gosto bastante do trabalho de Grace Passô na direção.

Tive a oportunidade de entrevistá-la durante a pré-estreia do filme, e uma das coisas que ela comentou foi justamente a vontade de criar algo diferente dos moldes aos quais estamos acostumados no cinema. Nesse sentido, acredito que ela cumpriu completamente o objetivo.

Nosso Segredo definitivamente não parece interessado em seguir uma cartilha convencional.

É um filme que flerta com o realismo fantástico, trabalha bastante com simbolismos e não sente a necessidade de explicar cada uma de suas ideias ao espectador. Essa escolha provavelmente também fará com que ele funcione muito mais para algumas pessoas do que para outras.

Não consigo imaginar Nosso Segredo como uma produção que vá necessariamente agradar ao grande público. Seu ritmo, sua estranheza e a maneira como trabalha suas metáforas podem afastar quem espera uma narrativa mais direta.

Ainda assim, é um bom filme.

Talvez não tenha me arrebatado durante todo o percurso e talvez sua primeira metade pudesse envolver mais, mas existe personalidade demais aqui para ignorá-lo. Principalmente quando chega ao fim e conseguimos compreender melhor o que aquela presença gigantesca representa dentro daquela casa.

Mais importante do que os prêmios

Grace Passô posa ao lado de Robert Frank, Efraim Santos, Jéssica Gaspar, Flip, Ju Colombo e Marisa Revert, integrantes do elenco de ‘Nosso Segredo’, no tapete vermelho do Festival Internacional de Cinema de Berlim. O grupo aparece diante do painel azul da Berlinale durante a apresentação do filme no festival.

Depois de vencer o Festival de Gramado, Nosso Segredo também entrou na disputa para tentar representar o Brasil no Oscar. Existem outros filmes brasileiros que talvez cheguem a essa corrida com estratégias de distribuição internacional mais consolidadas ou que pareçam, em um primeiro momento, escolhas mais óbvias.

Mas talvez exista uma conquista ainda mais urgente.

Na entrevista que fiz com Grace Passô, ela falou sobre como ganhar prêmios e representar o país é importante, mas como levar as pessoas para dentro das salas de cinema é ainda mais fundamental.

E talvez esse seja também um bom pensamento para encerrar qualquer discussão sobre a suposta falta de diversidade do nosso cinema.

Filmes brasileiros interessantes existem aos montes. Filmes diferentes também.

O desafio é fazer com que as pessoas consigam encontrá-los.

Espero que Nosso Segredo seja um deles.

Nota: 4/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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