O Agente Secreto e as memórias pirraças que continuam a reverberar (Crítica)
Situado no Recife de 1977, O Agente Secreto marca o retorno triunfal de Kleber Mendonça Filho à ficção. O longa teve sua estreia mundial na Competição Oficial do Festival de Cannes de 2025, onde fez história ao conquistar os prêmios de Melhor Direção e Melhor Ator para Wagner Moura — o primeiro brasileiro a vencer essa categoria —, além do prestigiado prêmio da crítica internacional (FIPRESCI). Consagrado no Globo de Ouro e no Critics’ Choice Awards como Melhor Filme Internacional, o longa chega ao Oscar 2026 com 4 indicações históricas: Melhor Filme, Melhor Filme Internacional, Melhor Ator para Wagner Moura e o prêmio inaugural de Melhor Direção de Elenco. No elenco estelar, destacam-se ainda nomes como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Alice Carvalho, Tânia Maria, Carlos Francisco e o veterano Udo Kier. No Brasil, o filme estreou nos cinemas em 6 de novembro de 2025 com distribuição da Vitrine Filmes. Atualmente, a obra ainda não está disponível para aluguel em plataformas digitais, com previsão de chegada ao streaming apenas após a cerimônia do Oscar, em meados de março de 2026.
Crítica – O Agente Secreto
Quando ouvimos o título O Agente Secreto atrelado a um filme sobre a ditadura militar brasileira — e estrelado por Wagner Moura — , é quase inevitável esperar uma obra nos moldes de Marighella. A mente logo projeta lutas armadas, agentes infiltrados e o enfrentamento direto contra o regime. No entanto, é exatamente ao quebrar essa expectativa inicial que Kleber Mendonça Filho entrega um de seus trabalhos mais singulares, provando que não tem medo de fugir dos padrões do cinema atual.
Ao invés de focar apenas na linha de frente da resistência, o diretor escolhe um caminho menos explorado e incrivelmente assustador: a banalidade do mal. O roteiro escancara como a ditadura afetou a vida de pessoas comuns e aleatórias. Não era preciso ser um militante armado para ter a vida destruída; muitas vezes, bastava que alguém com o nome certo e os contatos certos no regime simplesmente “não fosse com a sua cara”. É um retrato amargo de como o autoritarismo se fundiu ao famigerado “jeitinho brasileiro” para facilitar perseguições pessoais.
O verdadeiro coração do longa — traçando um paralelo com Ainda Estou Aqui — é a memória. Como ambos os filmes fizeram sucesso em anos consecutivos e se passam durante o regime militar, a comparação tornou-se inevitável; no entanto, além de falarem sobre memória, as coincidências param por aí. A narrativa guia-nos através de Flávia, uma estudante universitária que pesquisa fitas e áudios da época. É através dos ouvidos dela que o passado ganha forma e conhecemos a história de Armando (ou Marcelo) (Wagner Moura). O filme aborda a memória como algo imaterial que persiste. A ditadura tentou apagar histórias, mas não conseguiu completamente. Essas memórias sobrevivem e acompanham-nos, tanto para o bem quanto para o mal. É impossível não conectar essa reflexão com o nosso presente: diante das ameaças recentes à democracia brasileira, fica a sensação amarga de que as sombras do passado e as figuras do autoritarismo ainda caminham entre nós. Mas o filme também nos conforta ao mostrar que as boas lembranças e a resistência também permanecem.
No elenco, as atuações elevam ainda mais a obra. Wagner Moura entrega, como de costume, um trabalho excelente, com destaque para a dinâmica melancólica da cena final. O diálogo entre Flávia e o filho de Armando (também vivido por Moura) é devastador: o filho admite que a estudante conhece o seu pai melhor do que ele próprio, já que não tem memórias claras do pai, morto cedo fugindo da perseguição, mas carrega o seu sangue, o seu nome e as suas “coincidências”. Vale destacar também Tânia Maria, que ilumina o filme com um carisma impressionante sempre que aparece em cena. Ao lado deles, Alice Carvalho protagoniza um momento inesquecível. Em uma única cena, interpretando a mulher de Armando, ela simplesmente arrebenta, demonstrando uma força gigantesca ao falar sobre o orgulho que tem do seu próprio pai. É uma atuação de imenso impacto que rouba a cena e deixa o espectador a refletir muito tempo depois.
O Agente Secreto é a prova da assinatura única de Kleber Mendonça Filho, capaz de mostrar muito sobre a complexidade do Brasil usando muito pouco. É um filme essencial sobre as memórias que herdamos dos nossos pais, as memórias que criamos (até as falsas) e aquelas que, por mais que tentem silenciar, continuam a reverberar na nossa história.

Nota: 4,5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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