Homem-Aranha: Um Novo Dia é grandioso na ação, mas inesquecível por seu coração (Crítica)
‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ tinha uma missão difícil. Além de continuar os acontecimentos de ‘Homem-Aranha: Sem Volta para Casa’, o filme precisava apresentar uma nova fase para Peter Parker, agora completamente sozinho e sem ocupar novamente a posição de aprendiz de algum herói mais experiente. Felizmente, o resultado não apenas atende às expectativas, como finalmente entrega a versão do Homem-Aranha de Tom Holland que muitos esperavam encontrar nas telas desde sua estreia no Universo Cinematográfico da Marvel. A convite da Sony Pictures Brasil, assistimos ao filme em uma cabine de imprensa. O longa já está disponível nos cinemas brasileiros desde o dia 29 de julho.
A melhor ação já vista

Uma das minhas maiores expectativas estava nas cenas de ação. A presença de Destin Daniel Cretton na direção, depois do excelente trabalho realizado em ‘Shang-Chi e a Lenda dos Dez Anéis’, criava a esperança de que o filme apresentaria algumas das melhores sequências de luta da trajetória cinematográfica do herói. Nesse aspecto, ‘Um Novo Dia’ não decepciona: para mim, o longa possui as melhores cenas de ação já realizadas em um filme live-action do Homem-Aranha.
Cretton compreende perfeitamente a movimentação do personagem. A forma como Peter se balança entre os prédios, utiliza suas teias durante os combates e improvisa diante dos adversários transmite uma agilidade que frequentemente parecia restrita aos videogames. A sequência envolvendo o tanque é um dos melhores exemplos disso, lembrando diretamente a movimentação e as coreografias dos jogos do Homem-Aranha produzidos pela Insomniac Games.
Essa influência não parece uma simples tentativa de reproduzir os games, mas uma maneira de entender aquilo que torna a ação do personagem tão particular. Peter não luta como qualquer outro herói. Ele transforma o cenário em uma extensão de seus poderes, utiliza as teias de maneiras criativas e mistura força, velocidade e inteligência. Tudo isso aparece com clareza no filme, especialmente em sua reta final e no confronto envolvendo os ninjas do Tentáculo.
Finalmente, o Homem-Aranha

Entretanto, o principal acerto de ‘Um Novo Dia’ não está apenas no espetáculo. É a construção de Peter Parker que realmente coloca o filme entre os melhores capítulos cinematográficos do personagem.
Gosto dos três filmes anteriores protagonizados por Tom Holland, mas eles apresentam uma versão diferente do Homem-Aranha. Peter estava constantemente cercado por figuras que funcionavam como mentores ou referências. Primeiro tivemos Tony Stark; depois, Nick Fury e a influência de Quentin Beck; e, em ‘Sem Volta para Casa’, o Doutor Estranho e as outras versões do Homem-Aranha.
O longa anterior terminava justamente com Peter finalmente assumindo sozinho o peso de suas escolhas. Ele havia perdido sua identidade, seus amigos e qualquer estrutura que pudesse protegê-lo. ‘Um Novo Dia’ é o filme que finalmente permite que vejamos essa transformação em funcionamento. Agora ele não está procurando alguém que lhe mostre o caminho. Pelo contrário: é Peter quem se torna um exemplo para os outros personagens.
Tom Holland também entrega sua melhor atuação como Homem-Aranha. O ator consegue equilibrar a confiança de um herói mais experiente com a solidão e a vulnerabilidade de um Peter que ainda sente profundamente tudo aquilo que perdeu. É uma interpretação mais madura, emocional e segura, que acompanha perfeitamente a evolução do personagem.
Um herói que inspira

Essa mudança é especialmente importante porque o filme reúne uma quantidade surpreendente de figuras conhecidas. Hulk, Justiceiro, Jean Grey e diferentes vilões do universo do Homem-Aranha fazem parte da história. Em outras circunstâncias, esse excesso de personagens poderia facilmente transformar Peter em um coadjuvante dentro do próprio filme.
Felizmente, isso não acontece.
Mesmo quando algumas participações são pontuais, como no caso de Bruce Banner e Hulk, cada personagem possui uma função dentro do roteiro. Ninguém parece estar ali apenas para criar uma surpresa, preparar outra produção ou gerar uma imagem para o trailer. A história é relativamente simples e não depende de grandes reviravoltas, mas consegue organizar muito bem seus personagens e fazer com que todos contribuam para o amadurecimento de Peter ou sejam transformados pela convivência com ele.
Peter demonstra sua evolução não apenas como herói, mas também como cientista. A criação de um inibidor universal de poderes reforça sua genialidade, algo que nem sempre foi explorado adequadamente nos filmes anteriores. Mais importante do que conseguir enfrentar o Hulk fisicamente, porém, é sua capacidade de alcançar Bruce Banner por meio do diálogo. Peter consegue “derrotar” o Hulk sem depender apenas da força, mostrando que sua empatia continua sendo uma de suas maiores habilidades.
O mesmo acontece em sua relação com o Justiceiro. Frank Castle carrega novamente o conflito entre matar ou poupar seus adversários, uma dualidade normalmente explorada em seu relacionamento com o Demolidor. Aqui, o Homem-Aranha assume essa posição moral. Ao final, Frank demonstra arrependimento por ter atirado e tentado matar Jean Grey, revelando que a postura de Peter conseguiu afetá-lo.
Peter não aprende com os outros heróis desta vez. São eles que aprendem com Peter.
As consequências do filme anterior

O roteiro demonstra maturidade semelhante ao abordar MJ e Ned. Depois do final de ‘Sem Volta para Casa’, existia o receio de que a continuação simplesmente desfizesse o feitiço e restaurasse rapidamente a amizade do trio. Isso diminuiria completamente o peso do sacrifício realizado por Peter.
‘Um Novo Dia’ escolhe um caminho muito mais doloroso e honesto.
Durante uma das cenas, o filme nos faz acreditar que MJ finalmente se lembrou de Peter. Pouco depois, descobrimos que ela estava sendo controlada por Jean. A conversa que acontece em seguida é especialmente pesada porque MJ admite que o feitiço realmente funcionou. Ela não ama Peter porque, para ela, ele é praticamente um desconhecido.
É um golpe devastador para o personagem e também para o público, mas necessário para respeitar as consequências estabelecidas pelo longa anterior. O filme não oferece uma solução fácil apenas para agradar aos fãs. Ele entende que algumas perdas precisam permanecer para que as escolhas dos personagens tenham significado.
A situação de Ned é mais ambígua. O aperto de mão que ele costumava fazer com Peter e a maneira como pronuncia seu nome podem indicar que parte de suas memórias começou a retornar. Também existe a possibilidade de ser apenas uma espécie de memória muscular ou uma consequência da interferência de Jean em sua mente. Independentemente da explicação, o momento não apaga aquilo que aconteceu anteriormente e deixa uma possibilidade interessante para o futuro.
Jean Grey e a responsabilidade dos poderes

A introdução de Jean Grey também funciona melhor do que muitos poderiam imaginar. Sadie Sink está muito bem no papel e consegue transmitir tanto a instabilidade e a força da personagem quanto a dor e a vulnerabilidade escondidas por trás de suas ações.
Do ponto de vista mercadológico, apresentar uma personagem que provavelmente terá grande importância nas próximas fases da Marvel dentro de um filme protagonizado por um herói já consolidado é uma estratégia bastante compreensível. O estúdio fez algo semelhante com o próprio Homem-Aranha e com o Pantera Negra.
O mais importante, porém, é que sua presença faz sentido dentro da história.
Jean funciona como uma antagonista durante boa parte do filme, mas suas ações estão ligadas à dor, ao abandono e à incapacidade de lidar com aquilo que perdeu. Aos poucos, conhecemos sua origem e entendemos que sua mãe a abandonou depois de descobrir seus poderes. Essa rejeição dialoga diretamente com a história dos mutantes, que sempre funcionaram como uma representação de grupos marginalizados e pessoas perseguidas simplesmente por serem diferentes.
É justamente nesse ponto que Peter se torna essencial para sua transformação. Ele também sofreu perdas irreparáveis e teve sua vida destruída diversas vezes, mas contou com a presença de tia May para ensiná-lo que o sofrimento não elimina sua responsabilidade diante das outras pessoas. Afinal, como diz a famosa frase que define a essência do personagem: “Com grandes poderes vêm grandes responsabilidades”.
A lembrança de May e seu discurso sobre o quanto Peter é especial não pelos poderes, mas por quem ele é, formam alguns dos momentos mais bonitos do filme. Essa mensagem não serve apenas para Peter. Ela alcança Jean e oferece a ela aquilo que faltou durante sua formação: alguém capaz de mostrar que seus poderes não precisam definir sua humanidade.
Peter não ignora a dor de Jean e também não tenta justificar suas ações. Ele apenas mostra que existe outro caminho. Perder alguém não significa que ela precisa permitir que o luto controle sua vida ou transforme sua dor em violência. Quando Jean decide abandonar a posição de vilã e tentar ser uma pessoa melhor, sua mudança parece consequência natural do relacionamento desenvolvido entre os dois.
Essa discussão também se conecta ao conflito interno de Peter. Em determinados momentos, ao se transformar no Homem-Aranha, ele parece deixar Peter Parker para trás. O filme compreende que ele não pode escolher entre essas duas identidades. Peter precisa ser o Homem-Aranha, mas o Homem-Aranha também precisa continuar sendo Peter. É sua humanidade, e não apenas seus poderes, que permite que ele inspire as pessoas ao seu redor.
O amigão da vizinhança

A conclusão consegue reunir tudo o que o filme construiu. Ver Nova York inteira torcendo por Peter e vibrando com ele demonstra o quanto o Homem-Aranha é amado pela cidade. Depois de passar tanto tempo sozinho e acreditar que precisava carregar todo o peso sem qualquer reconhecimento, Peter finalmente percebe que sua presença importa.
A cidade não ama apenas seus poderes. Ela ama aquilo que ele representa.
Por tudo isso, ‘Homem-Aranha: Um Novo Dia’ entra facilmente para a lista dos melhores filmes do personagem. É o melhor longa protagonizado por Tom Holland e, para mim, o melhor filme live-action do Homem-Aranha desde ‘Homem-Aranha 2’. Também supera as produções estreladas por Andrew Garfield.
As excelentes cenas de ação, o ótimo trabalho de efeitos visuais e a criatividade das coreografias certamente contribuem para esse resultado. Porém, o que realmente diferencia o filme é seu coração.
‘Um Novo Dia’ entende que Peter Parker não é especial apenas porque consegue escalar paredes, levantar toneladas ou atravessar Nova York pendurado em suas teias. Ele é especial porque, mesmo depois de perder tanto, continua acreditando que as pessoas podem escolher um caminho melhor.
É isso que faz do Homem-Aranha não apenas o maior herói, mas o maior personagem de toda a cultura pop.

Nota: 4,5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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