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Pluribus é o espelho da sociedade em tempos artificiais (Crítica)

Vince Gilligan trocou os desertos de Albuquerque e o crime organizado por uma abordagem inédita em sua carreira: a ficção científica existencial. Lançada exclusivamente no Apple TV+, Pluribus marca o retorno do aclamado criador de Breaking Bad e Better Call Saul, que aqui atua como showrunner, roteirista principal e diretor dos episódios-chave (incluindo o piloto). A produção é uma parceria da Sony Pictures Television com a Apple. O elenco é liderado pela brilhante Rhea Seehorn, que dá vida à protagonista Carol, entregando mais uma performance cheia de nuances

Sinopse: A trama se desenrola após a chegada de um misterioso sinal do espaço, que coincide com a propagação de um vírus biológico-tecnológico capaz de conectar as mentes humanas em uma “colmeia” única. O resultado é o fim imediato de todas as guerras e conflitos globais, mas ao custo terrível da anulação da individualidade. Enquanto a humanidade se rende a essa nova paz artificial, Carol, uma mulher solitária e socialmente deslocada, torna-se uma peça improvável na resistência, lutando para manter sua própria “bagunça” interna e identidade em um mundo que exige conformidade absoluta.

Crítica – Pluribus

Às vezes, as melhores surpresas são aquelas que demoramos para desembrulhar. Pluribus chegou de forma discreta ao meu radar, e confesso que levei mais de um mês para dar o play. Talvez fosse o receio do hype — afinal, uma série vinda do mesmo criador de Breaking Bad e Better Call Saul carrega um peso enorme, mesmo para mim, que nunca fui devoto dessas obras anteriores. Mas, guiado pelo boca a boca insistente, resolvi assistir. O resultado? Encontrei facilmente uma das melhores séries do ano.

É curioso como a recepção de Pluribus dividiu opiniões. Muitos a acusaram de ser lenta, arrastada, uma trama onde “nada acontece”. Para mim, essa crítica não poderia estar mais distante da verdade. Não senti cansaço em nenhum segundo; pelo contrário, a série me prendeu justamente pela construção meticulosa de sua atmosfera e de seus temas.

Embora a premissa gire em torno de um sinal do espaço e um vírus misterioso que conecta as mentes humanas em uma “colmeia”, Pluribus é, na sua essência, uma discussão urgente sobre a nossa realidade atual. A série consegue falar sobre Inteligência Artificial sem precisar citar o termo explicitamente. Vivemos uma era de padronização, onde redes sociais e algoritmos nos empurram para uma conformidade que apaga nossa singularidade. A “colmeia” da série vende a utopia da paz mundial, do fim das guerras e conflitos. Mas qual é o preço dessa paz? O custo é o apagamento da cultura, da origem e da personalidade individual. A série nos questiona: se para estarmos unidos precisamos deixar de ser nós mesmos, isso é respeito ou é apenas anulação?

Para nós que trabalhamos com criação de conteúdo e utilizamos IA no dia a dia, a identificação é imediata. Quem vive essa rotina de criar prompts e enviar comandos compreende perfeitamente a angústia da protagonista. A sensação constante é de que ela está dialogando com uma grande inteligência artificial que assumiu o controle da humanidade.

Essa narrativa só se sustenta graças à atuação visceral de Rhea Seehorn, que carrega toda a complexidade da trama. Pluribus acerta ao não transformar Carol em uma mártir altruísta; ela é falha. Graças à entrega da atriz, sentimos os momentos em que ela desliga, em que quase cede ao conforto da colmeia, e em que apenas tenta sobreviver e ter pequenos prazeres. É fácil para o espectador julgar e exigir heroísmo, mas a performance de Seehorn nos coloca no espelho: será que faríamos diferente? Ou seríamos como o personagem que aproveita o apocalipse para viver como um rei? A série, ancorada nessa grande atuação, não nos dá respostas fáceis, apenas nos mostra a complexidade humana.

Talvez o ponto mais profundo que Pluribus evoca — e que ficou ecoando na minha mente — é a questão da arte. A mente coletiva da série pode ter acesso a todas as habilidades técnicas e memórias da humanidade, mas ela consegue criar? Eu acredito que não. E a série toca nessa ferida: um mundo sem conflito e sem individualidade é um mundo sem arte. A arte é o nosso escape, é a nossa forma de processar a realidade. Assim como a IA generativa hoje pode “gerar” uma imagem ou música baseada em padrões, ela não “cria” com alma e coração. Aquilo é processamento, não criação. Se removermos a capacidade humana de criar e consumir arte, o que sobra da sociedade? A resposta de Pluribus parece ser um vazio existencial, mesmo que travestido de paz.

Com um mistério bem dosado — que felizmente não caiu na armadilha de explicar demais e perder a graça, como vi acontecer em RupturaPluribus se sustenta não pelas respostas sobre o vírus ou os alienígenas, mas pelo estudo de personagem e identidade.

Existe uma máxima poderosa nas discussões raciais que diz: “Se você não vê a minha cor, você não me vê”. A série expande essa lógica para todos os aspectos da nossa existência. Apagar nossas diferenças, origens e traços únicos em nome de uma suposta harmonia não é união, é invisibilidade. Em um mundo que tenta nos transformar em algoritmos, Pluribus é um lembrete vital de que nossa personalidade é o que nos define e, com todas as suas imperfeições e complexidades, ela é inegociável.

Nota: 4,5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Se você curtiu o texto, tem vídeo completo com a minha opinião sobre Pluribus lá no canal do YouTube. Se preferir apenas ouvir, o áudio também está disponível nos principais aplicativos de podcast.

E fica a dúvida para a temporada de premiações, que vamos cobrir aqui no Multi Nerdz: será que a série tem força para levar a categoria de Melhor Drama? E a Rhea Seehorn, será que finalmente conquista o prêmio de Melhor Atriz? Façam suas apostas.

Ah, e para quem está perguntando: a 2ª temporada já está confirmada! A Apple encomendou duas temporadas de uma vez. O problema é a espera, pois a previsão de estreia é só para o final de 2027 ou começo de 2028.

E você? Entraria na “colmeia” para viver em paz ou prefere continuar sendo você mesmo? Comenta aí!

Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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