O Fim da Rua vai além dos dinossauros e entrega uma aventura tão divertida quanto inesperada (Crítica)
À primeira vista, O Fim da Rua (The End of Oak Street) parece partir de uma ideia tão absurda quanto simples: ambientado nos anos 1980, o longa acompanha a família Platt, liderada por Denise e Greg, vividos por Anne Hathaway e Ewan McGregor, que enfrenta problemas dentro de casa quando um misterioso evento cósmico arranca sua rua do subúrbio e a transporta para um lugar desconhecido, onde dinossauros passam a representar uma ameaça bastante real. Maisy Stella e Christian Convery completam o núcleo familiar como os filhos do casal.
O filme é escrito e dirigido por David Robert Mitchell, responsável por Corrente do Mal e O Mistério de Silver Lake, e conta com produção de J.J. Abrams. A distribuição é da Warner Bros. Pictures. A convite da própria distribuidora, nós do Multi Nerdz tivemos a oportunidade de assistir ao filme durante sua pré-estreia oficial, realizada em São Paulo. O Fim da Rua chega aos cinemas brasileiros na próxima quinta-feira, 13 de agosto.
Uma surpresa que o trailer não conseguiu vender
Talvez a melhor maneira de começar falando sobre O Fim da Rua seja admitindo que eu esperava muito pouco dele. O trailer apresentava uma premissa curiosa, certamente, mas também transmitia aquela sensação de que estávamos diante de algo potencialmente bobo demais, sustentado apenas pela combinação entre uma família suburbana e dinossauros.
O resultado, felizmente, está bem longe de ser a bomba que eu imaginava.
O Fim da Rua entende perfeitamente a natureza da própria proposta e, em vez de tentar transformá-la em algo grandioso ou excessivamente sério, abraça a aventura fantasiosa. É um filme divertido, de ritmo agradável e com aquela energia característica das aventuras familiares de décadas passadas — especialmente das produções que misturavam crianças, famílias, criaturas extraordinárias e situações completamente impossíveis.
Não se trata necessariamente de uma comédia, mas existe uma leveza constante. O filme quer provocar tensão e sustos, mas também quer que o público se divirta acompanhando aquela família tentando sobreviver a uma situação absolutamente inacreditável. E é justamente nesse equilíbrio que ele encontra boa parte de seu charme.
Uma família simples, mas suficiente para sustentar a aventura
O roteiro de David Robert Mitchell não apresenta personagens particularmente complexos, e tampouco parece interessado em fazer isso. O drama familiar que antecede toda a loucura é relativamente simples: Denise e Greg atravessam uma crise no relacionamento, enquanto precisam continuar funcionando como pais e manter a família unida.
É um background raso? Em certa medida, sim. Mas também é suficiente.
A relação entre os personagens funciona como uma espécie de estofo emocional para tudo o que acontece depois. Quando o fantástico invade aquela rotina aparentemente normal, existe pelo menos uma dinâmica estabelecida entre eles. Sabemos que aquele casal carrega problemas, que existe alguma distância emocional e que a necessidade de sobrevivência os obriga a se reconectar.
Isso impede que o longa se transforme apenas em uma sequência de pessoas correndo de dinossauros.
O roteiro dificilmente será lembrado pelos grandes diálogos ou por reflexões profundas sobre casamento e família, mas oferece material suficiente para que os atores deem alguma humanidade àquela situação. Para um filme que entende sua principal missão como entregar uma aventura divertida, já é uma base funcional.
Anne Hathaway consegue elevar até os momentos mais simples
Entre as atuações, Anne Hathaway naturalmente chama bastante atenção. A atriz atravessa um 2026 especialmente movimentado, marcando presença em produções como O Diabo Veste Prada 2, A Odisseia e Mother Mary, além de ainda ter Verity entre seus projetos do ano. É uma presença constante nas telas — e bastante justificável diante da capacidade que ela demonstra de entregar exatamente aquilo que cada personagem exige.
Denise certamente não é o papel mais complexo de sua carreira. O Fim da Rua não oferece a Hathaway os melhores diálogos ou um grande estudo de personagem, mas ela consegue encontrar sinceridade mesmo dentro de uma produção essencialmente fantasiosa.
É uma qualidade importante de sua atuação: mesmo quando o material ao redor é propositalmente absurdo, ela nunca parece tratar a personagem como uma piada. Existe comprometimento suficiente para fazer os momentos dramáticos funcionarem e, principalmente, para vender o medo e o desespero quando a aventura assume contornos mais ameaçadores.
Ewan McGregor também funciona muito bem ao seu lado, e a química entre os dois ajuda a transformar o casal no centro emocional necessário para conectar as diferentes ideias do filme. Maisy Stella e Christian Convery, como os filhos do casal, também complementam muito bem esse núcleo familiar, contribuindo para que a dinâmica entre os quatro seja convincente e funcione como base emocional da aventura.
Quando a câmera resolve participar da brincadeira
Um dos elementos que mais me surpreenderam em O Fim da Rua está justamente na parte técnica. O filme poderia facilmente adotar uma linguagem visual genérica, simplesmente registrando a ação e confiando nos dinossauros para produzir espetáculo. Em vários momentos, porém, David Robert Mitchell e o diretor de fotografia Michael Gioulakis, que já havia trabalhado com ele em Corrente do Mal, encontram maneiras interessantes de construir os enquadramentos.
O exemplo mais evidente é o uso recorrente do split diopter, técnica que permite manter elementos posicionados em distâncias diferentes dentro do enquadramento simultaneamente em foco. Ela aparece até mesmo em cenas de diálogo aparentemente banais e cria uma composição visual diferente do que normalmente encontramos em um blockbuster desse tipo.
Não é algo que muda completamente o filme, mas representa muito bem aquilo que faz O Fim da Rua se destacar: são pequenos detalhes que você simplesmente não espera encontrar em uma produção com essa premissa.
E quando um filme encontra maneiras de tornar visualmente interessante até uma conversa simples entre personagens, existe ali uma intenção estética que merece ser reconhecida.
Dinossauros, humor e um pouco de terror
Outro acerto está na maneira como o longa passeia por diferentes tons sem abandonar sua essência de aventura.
Naturalmente, existe humor. Algumas das melhores piadas surgem de maneira inesperada, justamente porque o filme não interrompe a história para anunciar que chegou o momento de ser engraçado. A comicidade nasce das próprias situações absurdas e das reações dos personagens diante delas.
Mas existe também um lado surpreendentemente sombrio.
A experiência de David Robert Mitchell com o terror em Corrente do Mal aparece discretamente em algumas sequências. O Fim da Rua possui sustos genuínos, momentos de tensão e acontecimentos consideravelmente mais pesados do que sua aparência inicial sugere. Os dinossauros não funcionam apenas como criaturas fantásticas feitas para produzir espetáculo; em determinados momentos, eles efetivamente representam uma ameaça assustadora.
Essa alternância ajuda bastante o longa. Quando você começa a acreditar que já entendeu exatamente o tipo de filme que está assistindo, ele encontra alguma pequena maneira de quebrar sua expectativa — seja através de uma piada, de uma escolha de câmera, de um susto ou de uma consequência inesperadamente cruel.
Nada disso transforma O Fim da Rua em um terror ou em uma experiência particularmente pesada. Ainda estamos falando de uma grande aventura fantasiosa. Mas são essas pequenas doses de estranheza que dão personalidade ao conjunto.
Um terceiro ato que cria perguntas maiores do que o próprio filme
É na reta final que O Fim da Rua começa a brincar de maneira mais evidente com conceitos de viagem temporal e realidades diferentes, introduzindo elementos que podem facilmente ser associados às discussões de multiverso que se tornaram tão populares nos últimos anos.
E é justamente nesse ponto que o roteiro talvez abra uma porta grande demais para aquilo que está disposto a explorar.
Uma determinada solução envolvendo o retorno dos personagens para um momento anterior dos acontecimentos produz uma consequência lógica bastante curiosa. Quando começamos a pensar exatamente no que aquela decisão significa para outras versões daquela família, surge uma discussão bem mais complexa sobre linhas temporais e sobre quem permanece em cada realidade.
O problema — ou talvez parte da graça — é que O Fim da Rua não está particularmente interessado em responder a isso.
Existe até a sensação de que essa é uma questão que talvez nem o próprio roteiro tenha parado para desenvolver completamente. Ainda assim, é curioso perceber que uma aventura aparentemente tão simples consegue terminar deixando uma pergunta desse tamanho na cabeça do espectador.
Não considero necessariamente uma grande falha porque o filme nunca se vende como uma obra disposta a destrinchar as regras de uma viagem no tempo. A discussão simplesmente acaba sendo maior do que aquilo que O Fim da Rua se propõe a ser.
Uma ótima sessão da tarde — no melhor sentido possível
No fim, talvez seja justamente aí que esteja a melhor definição para O Fim da Rua: é uma ótima sessão da tarde, no melhor sentido possível da expressão.
É uma aventura fantasiosa, divertida e despretensiosa, com dinossauros, drama familiar, humor, alguns bons sustos e escolhas técnicas que demonstram um cuidado maior do que sua premissa inicialmente deixa imaginar.
Não sou particularmente fã da franquia Jurassic Park, tampouco faço parte daquele grupo de pessoas que se empolga automaticamente diante de qualquer coisa envolvendo dinossauros. Ainda assim, O Fim da Rua conseguiu me conquistar.
Talvez porque os dinossauros sejam apenas uma parte da experiência. O filme funciona melhor quando utiliza suas criaturas como combustível para uma aventura sobre uma família comum colocada diante de uma situação completamente extraordinária.
O roteiro possui suas limitações, alguns conceitos são mais interessantes do que desenvolvidos e dificilmente estamos diante de uma história destinada a reinventar qualquer um dos gêneros pelos quais passeia. Mas existe personalidade, existe diversão e, acima de tudo, existe a sensação de que David Robert Mitchell tentou fazer um pouco mais do que simplesmente colocar Anne Hathaway e Ewan McGregor correndo de dinossauros durante duas horas.
Eu entrei esperando muito pouco e saí genuinamente surpreso. Às vezes, isso já é mais do que suficiente.

Nota: 3,5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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