Demolidor Renascido T2 une ação visceral e reflexos amargos da nossa política em uma temporada super positiva (Crítica)
Produzida pela Marvel Studios, a segunda temporada de Demolidor Renascido retorna com um fôlego renovado sob o comando do showrunner e roteirista principal Dario Scardapane, contando com a direção afiada de nomes como a dupla Justin Benson e Aaron Moorhead. A trama desta nova fase nos joga diretamente no meio de uma Nova York sufocada pela implacável ascensão política de Wilson Fisk. Utilizando uma brutal Força-Tarefa Antivigilante como seu braço armado, o Rei do Crime impõe uma verdadeira caça aos heróis mascarados enquanto oprime impiedosamente as minorias nas ruas da cidade. Nesse cenário caótico, Matt Murdock precisa equilibrar sua atuação nos tribunais com a vigilância noturna, buscando formar alianças e lidando com o peso de suas próprias convicções para tentar desmoronar o império de seu arqui-inimigo.
Para dar vida a esse embate, a série conta com um elenco de peso que domina a tela. Liderada mais uma vez pelos excelentes Charlie Cox e Vincent D’Onofrio, que entregam atuações repletas de dualidade, a produção também traz de volta figuras muito queridas pelos fãs. Nomes como Elden Henson, Deborah Ann Woll, Ayelet Zurer e Wilson Bethel retornam para reprisar seus papéis, além de contar com as participações especiais de Krysten Ritter e Mike Colter, expandindo as tão aguardadas conexões desse núcleo urbano.
Graças ao pessoal da Disney Brasil, que gentilmente nos cedeu o acesso antecipado para a realização desta cobertura, pudemos conferir tudo o que essa nova fase tem a oferecer antes da estreia oficial. Para quem estava ansioso para saber se a série conseguiu corrigir as turbulências do seu início, a boa notícia é que os oito episódios da segunda temporada de Demolidor Renascido já estão inteiramente disponíveis no catálogo do Disney+, prontos para serem maratonados. Sem mais delongas, confira a nossa crítica completa abaixo:
Crítica – Demolidor Renascido (2ª Temporada)
A segunda temporada de Demolidor Renascido representa um salto gigantesco e muito bem-vindo em relação ao seu ano de estreia. Se a primeira temporada foi marcada por refilmagens e reformulações de rota com o carro em movimento, esta nova leva de episódios chegou com um caminho muito bem desenhado desde o início. O resultado é uma narrativa muito mais coesa, madura e bem resolvida, tanto do ponto de vista técnico quanto de roteiro.
Logo de cara, a série se destaca por ser extremamente atual e corajosa em suas alegorias. A primeira metade da temporada, em especial, não tem medo de escancarar paralelos sociais densos. As comparações da figura de Wilson Fisk com Donald Trump, e a atuação da Força-Tarefa Antivigilante como uma clara referência ao ICE, trazem um peso político forte. Ao mostrar a força-tarefa prendendo e agredindo brutalmente minorias e imigrantes nas ruas sem justificativa, a série finca os pés na realidade e eleva a seriedade da trama.
Tecnicamente, a produção brilha de forma intensa nessa mesma primeira metade. Para os fãs órfãos das lutas viscerais do passado, a temporada entrega coreografias impecáveis que figuram entre as melhores do universo Marvel. O grande destaque absoluto vai para a cena em plano-sequência do Demolidor salvando os prisioneiros na cadeia do Fisk, consolidando um trabalho de direção e fotografia espetacular, imersivo e tecnicamente brilhante.
Embora a temporada perca um leve fôlego da metade para o final, ela nos presenteia com o que pode ser considerado não apenas o melhor episódio de Demolidor Renascido, mas talvez de toda a trajetória do Homem Sem Medo na TV: o quinto episódio. Focado na morte de Vanessa, o capítulo é a Marvel em seu estado de arte. A direção e a estética prestam uma homenagem belíssima à série original, mas é a dinâmica de personagens que rouba a cena. O flashback com Foggy Nelson, por exemplo, adiciona uma camada rica à mitologia de Matt Murdock, revelando que sua regra de não matar vai muito além do catolicismo e tem raízes profundas na influência do amigo. Paralelamente, temos uma atuação magistral de Vincent D’Onofrio. Wilson Fisk é um monstro implacável, mas a performance do ator nos faz sentir uma empatia genuína em seu luto. O brilho do roteiro está em nos fazer compreender que, apesar da crueldade, o amor de Fisk por Vanessa era verdadeiro, e sua dor transborda na tela.
O roteiro também acerta ao dar peso a personagens que antes pareciam descartáveis, como mostra a trama de Daniel e BB Urich, que ganha um desenvolvimento na reta final capaz de fazer com que a morte dele seja realmente sentida pelo público. O Mercenário também tem um retorno digno, entregando ótimas sequências de ação. Por outro lado, o prometido “exército” de Matt Murdock acabou deixando a desejar. A participação de Jessica Jones falhou em empolgar, não agregando muito à trama ou à ação, e o mesmo vale para Luke Cage, que aparece apenas nos momentos finais. Fica o sentimento de oportunidade desperdiçada, já que tê-los na batalha final teria elevado o clímax de forma absurda.
A resolução da série é agridoce e gera sentimentos mistos. Ver a própria cidade de Nova York se voltar contra Fisk é uma ideia poética e visualmente muito bem executada, somada ao tocante sacrifício de Matt no tribunal ao abrir mão de sua identidade secreta para salvar Karen. No entanto, o destino de Wilson Fisk é incômodo. Ver um criminoso com as mãos sujas de sangue inocente fazer um acordo e ser exilado para uma praia paradisíaca frustra o senso clássico de justiça. Contudo, essa conclusão levanta pontos reflexivos brilhantes. Por um lado, funciona como uma crítica social amarga do mundo real, onde figuras de poder raramente pagam por seus crimes atrás das grades. Por outro, representa a verdadeira punição para Fisk: as duas únicas coisas que ele amava eram Vanessa e Nova York. Ao perder a esposa para a morte e a cidade para o exílio, ele é condenado a viver com o vazio de ter perdido tudo o que o definia.
Em suma, Demolidor Renascido nunca será a icônica terceira temporada da série original da Netflix — que ainda reina como o ápice insuperável do gênero de super-heróis na televisão —, e está tudo bem. A série encontrou sua própria voz e identidade. Apesar da frustração com o uso das participações especiais e de um desfecho polarizador, o saldo é super positivo. A segunda temporada corrige os erros do passado, entrega ação de primeira linha, atuações memoráveis e deixa o espectador legitimamente empolgado para o que o futuro reserva na terceira temporada.

Nota: 4,5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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