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O Diabo Veste Prada 2 é um desfile de carisma em uma coleção repetida (Crítica)

Vinte anos depois de nos ensinar a diferença entre o azul-celeste e o turquesa, o universo implacável e glamouroso da moda está de volta às telonas. Produzido pela 20th Century Studios, o filme conta com o retorno de David Frankel na direção e de Aline Brosh McKenna e Lauren Weisberger no roteiro, os mesmos responsáveis pelo longa de 2006. Já a direção de figurino, elemento vital para a franquia, é assinada agora por Molly Rogers, que substitui Patricia Field, a figurinista do primeiro filme. No elenco o filme traz o aguardado retorno do icônico quarteto principal: Meryl Streep reprisando seu papel como Miranda Priestly, Anne Hathaway como Andy Sachs, Emily Blunt como Emily Charlton e Stanley Tucci como Nigel.

Nesta nova trama, a história acompanha o reencontro desses personagens em um cenário corporativo bastante diferente do que vimos em 2006. A sinopse foca nos desafios do mercado atual, mostrando como a revista Runway e o jornalismo tradicional tentam sobreviver e se adaptar em meio à ascensão da Inteligência Artificial, ao domínio das redes sociais e à cultura de engajamento, curtidas e cancelamento na internet.

Assistimos ao filme na cabine de imprensa a convite do pessoal da Disney e da 20th Century Studios Brasil. Confira a nossa crítica completa abaixo!

Crítica: O Diabo Veste Prada 2

O Diabo Veste Prada 2 chega aos cinemas surfando na grande onda atual de Hollywood: revisitar sucessos do passado. Exatos 20 anos após o original se tornar um marco da cultura pop, a sequência adota uma estratégia que lembra muito o que Star Wars fez em seu retorno. Mas em vez de passar o bastão para uma nova geração, o filme aposta na segurança, entregando uma história e uma dinâmica estruturalmente quase idênticas às do primeiro longa.

Confesso que meu “lugar de fala” aqui é um pouco diferente: não sou movido pela nostalgia de duas décadas, já que assisti ao primeiro filme literalmente na noite anterior à cabine desta sequência. Ainda assim, tendo gostado do original, é fácil perceber onde esta continuação brilha e onde ela tropeça.

Se o filme diverte — e ele é, de fato, muito divertido —, o mérito é quase exclusivo do seu quarteto principal. Meryl Streep, Anne Hathaway, Emily Blunt e Stanley Tucci estão simplesmente arrebentando. Eles retornam aos seus papéis com uma segurança e um carisma magnéticos. Toda a essência que fez o público se apaixonar por esses personagens ao longo de 20 anos está intacta na tela. A química entre eles é tão gigantesca que acaba se tornando o grande motor da obra, sendo perfeitamente capaz de compensar, para a grande maioria dos fãs, os deslizes que a produção apresenta pelo caminho.

Por outro lado, apesar da roupagem atual, o roteiro escorrega quando tenta modernizar seu universo. O filme tenta abraçar temas extremamente pertinentes do nosso tempo: a ascensão da Inteligência Artificial e a substituição de profissionais; a morte do jornalismo investigativo em prol da cultura de likes e visualizações; e a onipresença das redes sociais, dando pinceladas sobre a cultura do cancelamento.

O grande problema é que tudo isso é tratado de forma rasa. O filme joga esses conceitos na tela, mas não se aprofunda em nenhum deles para transformá-los no verdadeiro “coração” da trama. Além disso, o roteiro sofre com conveniências: alguns conflitos são resolvidos de forma fácil demais e algumas ações dos personagens soam esquisitas ou mal justificadas.

É sempre antipático dizer que uma sequência só é boa se superar a original, mas quando o novo filme é tão parecido com o primeiro, a comparação se torna inevitável. E, nesse embate, o longa de 2006 vence em quase todos os quesitos — especialmente na construção dos arcos dramáticos.

O primeiro filme tem uma mensagem muito clara sobre o quão tóxico e competitivo o mundo corporativo e da moda pode ser, e como às vezes é preciso ser durão para sobreviver. Mas ele faz isso com nuance. O arco final de Miranda Priestly no original é brilhante: apesar de seu ego e de considerar que Andy a decepcionou, ela engole o orgulho e a recomenda para o jornal, admitindo o talento da garota. Neste segundo filme, essa mensagem sobre as “regras cruéis do jogo” tenta ser replicada, mas se perde. O desenvolvimento emocional entre Miranda e Andy não tem o mesmo peso, fazendo com que a conclusão não soe tão redonda ou gratificante quanto a que vimos há 20 anos.

Em resumo, O Diabo Veste Prada 2 é um filme que vai agradar em cheio aos fãs mais assíduos, entregando exatamente a dose de nostalgia que eles buscam. Para quem espera uma evolução narrativa ou uma história que justifique sua existência além do reencontro comercial, a decepção pode bater na porta. É uma obra com problemas de roteiro e mensagens diluídas, mas que, no fim do dia, se sustenta no talento colossal de seus protagonistas. Um desfile seguro, sem inovações, mas com modelos que sabem exatamente como dominar a passarela.

Nota: 3,5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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