Nuremberg e a face humana do fascismo que não cai na mesmice (Crítica)
Adaptando o livro The Nazi and the Psychiatrist, o drama histórico Nuremberg (2025) mergulha nos bastidores do tribunal militar mais famoso da história. Com roteiro e direção de James Vanderbilt, o longa foca no duelo psicológico entre o psiquiatra norte-americano Douglas Kelley (Rami Malek) e o braço direito de Hitler, Hermann Göring, interpretado por Russell Crowe. O elenco ainda conta com nomes de peso como Michael Shannon, Richard E. Grant e John Slattery, prometendo uma densidade dramática que foge do tradicional filme de guerra.
A produção teve sua estreia mundial no Festival de Cinema de Toronto (TIFF), onde foi recebida com críticas positivas que destacavam a performance visceral de Crowe. No entanto, ao chegar à temporada de premiações de 2026, o longa acabou sendo um dos “esnobados” do ano, passando em branco no Globo de Ouro e no SAG Awards, apesar do forte burburinho inicial. Mesmo sem as estatuetas, o filme se consolidou como uma obra de impacto para o público, provocando discussões necessárias sobre a natureza do mal.
No Brasil, o filme chegou oficialmente aos cinemas em 26 de março de 2026, com distribuição da Diamond Films. Tivemos a oportunidade de conferir Nuremberg na pré-estreia oficial e você confere nossa crítica abaixo.
Crítica – Nuremberg
À primeira vista, Nuremberg pode soar como apenas mais uma adição ao vasto catálogo de produções sobre a Segunda Guerra Mundial ou mais um drama de tribunal. O longa flerta com elementos que remetem ao sucesso de Oppenheimer, unindo o peso do conflito global com a tensão de um julgamento iminente. No entanto, o filme passa longe da mesmice e entrega uma experiência dinâmica que faz jus à grandiosidade do que foi, de fato, o “julgamento do século”.
O grande trunfo técnico que impede o filme de cair na monotonia processual é a sua montagem. A edição é ágil e sabe dosar os momentos de choque com interações genuinamente carismáticas. Há um flerte com escolhas que poderiam facilmente soar cafonas ou clichês — o uso de câmera lenta e a entrada de trilhas sonoras épicas em momentos-chave —, mas a direção consegue equilibrar esses recursos. Dada a magnitude histórica dos personagens e dos eventos retratados, essa dramaticidade estilizada não apenas cabe na narrativa, mas eleva a experiência cinematográfica.
No centro desse espetáculo histórico, o elenco de peso entrega atuações formidáveis. Nomes como Rami Malek e John Slattery dão sustentação à trama, mas o grande destaque é inegavelmente Russell Crowe no papel de Hermann Göring. A genialidade da performance de Crowe — aliada a um roteiro e direção precisos — está em abraçar o desconfortável: ele transforma um dos maiores líderes do alto comando nazista em uma figura carismática, engraçada e encantadora, um homem de família que amava a esposa e a filha.
Essa humanização de Göring cria uma dualidade perturbadora. O filme joga com a perspectiva do espectador, forçando-o a questionar, durante grande parte da projeção, até que ponto ele realmente sabia dos horrores dos campos de concentração. É um plano de defesa astuto que culmina na excelente cena de confronto final no tribunal. É nesse clímax que o personagem de Richard E. Grant, até então mais lateralizado na trama, ganha os holofotes de forma brilhante. Ao expor a cegueira ideológica e a lealdade incondicional de Göring a Hitler, a fachada cai, provando sua cumplicidade inegável.
Nuremberg atinge o seu ápice emocional ao retratar o impacto brutal das imagens do Holocausto. Para o público moderno, cenas de campos de concentração já são conhecidas pelos livros de história, mas o filme resgata o peso e o choque absoluto do povo e do tribunal assistindo àquela barbárie pela primeira vez.
Mais do que um relato histórico, a obra entrega uma discussão incisivamente atual sobre a natureza do fascismo. Existe uma tendência reconfortante em enxergar os nazistas como monstros literais ou entidades diabólicas, distantes da nossa realidade. O filme, no entanto, bate na tecla de que eles eram pessoas comuns. Pessoas normais são capazes de cometer atrocidades terríveis quando a sociedade ao redor se cala, apoia ou é moldada pela ignorância.
Ao nos lembrar de que os fascistas operam através do preconceito, da disseminação de fake news e da ocultação da realidade, Nuremberg serve como um alerta contemporâneo indispensável. Os monstros não vêm de outro mundo; eles caminham entre nós, riem, amam suas famílias e, se permitirmos, destroem a humanidade.

Nota: 4/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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