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Hamnet e a alquimia da dor em arte pura (Crítica)

Adaptação do aclamado romance homônimo de Maggie O’Farrell, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet reimagina a história não contada de Agnes (baseada na figura histórica de Anne Hathaway) e seu marido, William Shakespeare. O comando do projeto está nas mãos de Chloé Zhao, diretora que fez história no Oscar com o poético Nomadland e trouxe sua visão autoral para o universo da Marvel com Eternos. Aqui, a trama se aprofunda na vida doméstica do casal em Stratford-upon-Avon e no luto devastador pela morte de seu único filho, Hamnet, aos 11 anos — uma perda irreparável que eventualmente inspiraria o dramaturgo a escrever uma de suas obras-primas, Hamlet.

A produção iniciou sua trajetória de sucesso com a estreia mundial no Festival Internacional de Cinema de Toronto (TIFF), onde foi amplamente aclamada pela crítica especializada. Desde então, consolidou-se como um dos grandes protagonistas da temporada, vencendo o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e garantindo o Critics Choice Award de Melhor Atriz para Jessie Buckley. Para o Oscar 2026, o filme confirmou sua força com um total de 8 indicações, concorrendo nas categorias de Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Atriz, Melhor Roteiro Adaptado, Melhor Trilha Sonora Original, Melhor Figurino, Melhor Design de Produção e Melhor Elenco. Com distribuição da Universal Pictures, o longa chegou aos cinemas brasileiros no dia 15 de janeiro de 2026.

Crítica – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

Existem filmes que assistimos para debater, para analisar friamente cada plot twist. E existem filmes como Hamnet, que são difíceis de achar palavras para analisar; eles são feitos para se sentir. Isso pode até parecer meme ou algo nesse sentido, mas eu acho que Hamnet é o exemplo perfeito disso. Sob a direção de Chloé Zhao, a obra se revela de uma simplicidade desconcertante. Não espere roteiros mirabolantes ou reviravoltas complexas; a trama é previsível — na metade da projeção, você já entende para onde o destino caminha. Contudo, é justamente nessa simplicidade, nessa previsibilidade trágica, que reside a força avassaladora do filme. É, sem sombra de dúvidas, um dos filmes que mais me emocionou e mais me fez chorar.

Em uma era saturada onde se decreta a “morte do cinema” diariamente, soterrados por live-actions, sequências e reboots, Hamnet surge como um respiro de arte original. Zhao aposta em uma estética rústica, quase bruta, para contar essa história. Mesmo tendo altas expectativas — como fã de Nomadland e defensor de Eternos —, e após uma longa espera para conseguir assistir ao filme, fui surpreendido. A diretora supera a expectativa não pela grandiosidade, mas pela honestidade da narrativa.

O elenco é o pilar que sustenta essa carga emocional. Se a temporada de premiações parecia dividida, a performance de Jessie Buckley encerra a discussão. É inexplicável que ainda haja dúvidas sobre seu favoritismo; ela entrega tudo como Agnes. Já na categoria de coadjuvante — que este ano está uma verdadeira bagunça —, é um absurdo que Paul Mescal não tenha levado nenhum prêmio e que ainda não tenha sido indicado ao Oscar. Para mim, ele é o melhor coadjuvante da temporada. Impressionantemente, as crianças são o coração pulsante da trama, entregando algumas das melhores atuações infantis que já vi.

Mais do que o luto, Hamnet fala sobre como a arte nos ajuda não necessariamente a superar, mas a entender e ressignificar a dor. Há um diálogo chave onde uma mulher chama a peça Hamlet de tragédia, enquanto Agnes insiste que será uma comédia — talvez porque, no fundo, ela não estivesse disposta a assistir a uma tragédia naquele momento. Mas quando ela vê a peça, ela finalmente sorri. Para ela, aquilo se tornou uma “comédia” não pelo riso tosco, mas porque a obra trouxe luz. Shakespeare pegou a maior dor humana possível e a transformou em algo grandioso, lindo e eterno.

Isso é reforçado pela trilha sonora. A escolha de usar a composição On the Nature of Daylight, de Max Richter, no final poderia soar apelativa, dado o histórico da música no cinema. Mas, nas mãos de Zhao, a composição ganha um novo significado, elevando a cena a um patamar de beleza pura.

Se Hamnet é o melhor filme da década ou do ano — considerando concorrentes fortes como Pecadores —, é difícil dizer. Mas se o termo “cinema de arte” existe, este é o seu melhor exemplar em muito tempo. É uma tragédia transformada em algo puro. Uma história de 400 anos mantida viva pela forma mais digna de se fazer cinema. Hamnet é a arte em sua forma mais linda e rústica.

Nota: 5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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