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Obsessão e a presença apaixonante e aterrorizante de Inde Navarrette

Obsessão é, sem dúvidas, um dos grandes fenômenos do cinema em 2026. E talvez eu tenha sido uma das pessoas que mais demoraram para embarcar nesse fenômeno. Quem me conhece sabe que o terror está longe de ser o gênero que mais acompanho. Não costumo assistir a tantas produções do tipo e, justamente por isso, demorei bastante para dar uma chance ao filme de Curry Barker.

No fim, ainda bem que dei.

Escrito e dirigido por Barker, Obsessão parte de uma premissa relativamente simples: Bear (Michael Johnston) é apaixonado por sua amiga de infância Nikki (Inde Navarrette) e, através de uma força sobrenatural, deseja que ela o ame mais do que qualquer outra pessoa no mundo. O desejo se realiza, mas aquilo que inicialmente parece ser exatamente o que Bear sempre quis rapidamente se transforma em algo monstruoso.

É uma premissa que poderia facilmente resultar em mais um terror preocupado apenas em assustar. Felizmente, Obsessão é bem mais interessante do que isso.

Muito além do jumpscare pelo jumpscare

Uma das coisas que mais gostei no filme é justamente o fato de ele não apostar no terror pelo terror. Existem jumpscares, sangue, gore e algumas imagens bastante pesadas, claro, mas Barker não parece interessado simplesmente em fazer o espectador pular da cadeira a cada cinco minutos.

O terror funciona porque existe alguma coisa por trás dele.

Nesse sentido, Obsessão me lembrou um pouco A Substância. Não necessariamente porque os dois filmes sejam parecidos em suas histórias, mas porque ambos utilizam o exagero, o grotesco e o horror físico como ferramentas para discutir questões muito maiores do que aquilo que aparece literalmente na tela.

Em Obsessão, o que começa como uma fantasia romântica rapidamente se transforma em uma história sobre obsessão, controle, relacionamentos abusivos, ausência de consentimento e, principalmente, uma determinada ideia de masculinidade.

E é justamente quando o filme começa a explorar isso que ele se torna muito mais interessante.

Inde Navarrette vai de apaixonante a aterrorizante

Ainda assim, para mim, o maior mérito de Obsessão tem nome e sobrenome: Inde Navarrette.

A atriz virou uma das grandes revelações de Hollywood neste ano, e basta assistir ao filme para entender o motivo. O sucesso da produção abriu inúmeras portas para sua carreira — incluindo sua escalação como Vampira no novo X-Men do MCU — e agora a Focus Features está oficialmente promovendo sua atuação em Obsessão para uma possível indicação ao Oscar de Melhor Atriz.

E, sinceramente, se essa indicação realmente acontecer, será completamente merecida.

O mais impressionante na atuação de Navarrette é a quantidade de extremos que ela precisa alcançar dentro de uma única personagem.

Antes da maldição tomar conta de Nikki, a atriz consegue transformá-la em uma garota absolutamente adorável. Existe uma leveza tão grande na maneira como ela interpreta a personagem que é muito fácil entender por que Bear é apaixonado por ela. Por mais questionáveis que sejam as atitudes dele posteriormente, a paixão inicial faz sentido para o espectador porque nós também somos rapidamente conquistados por Nikki.

Ela é divertida, carismática e genuinamente apaixonante.

E é justamente por isso que a transformação funciona tão bem.

Conforme a obsessão causada pelo desejo começa a consumir a personagem, Navarrette vai desconstruindo tudo aquilo que havia criado anteriormente. Expressões, olhares, postura e principalmente seus movimentos corporais passam a transmitir algo cada vez mais perturbador.

Até que aquela garota adorável simplesmente se torna assustadora.

E não estou falando apenas de maquiagem, violência ou efeitos visuais. Em alguns dos melhores momentos de terror do filme, basta Nikki se movimentar.

A maneira como Navarrette controla o próprio corpo é suficiente para provocar desconforto. Em determinadas cenas, você leva um susto com ela e, segundos depois, acaba até rindo de tão absurda — e bem executada — é aquela movimentação.

É uma atuação que exige da atriz doçura, comédia, terror, agressividade e uma fisicalidade enorme. Mais impressionante ainda é que todas essas versões continuam parecendo pertencer à mesma personagem.

Nikki não é o verdadeiro monstro de Obsessão

Mas talvez a parte mais interessante do filme esteja justamente na forma como ele muda nossa percepção sobre quem é o verdadeiro vilão dessa história.

Olhando superficialmente para Obsessão, é fácil chegar à conclusão de que Nikki é o monstro. Afinal, é ela quem começa a perseguir Bear, cometer atrocidades e se transformar naquela criatura cada vez mais perturbadora.

Só que Nikki nunca escolheu nada daquilo.

Tudo começa porque Bear decide interferir na vontade dela.

Ele deseja que Nikki o ame. A partir daquele momento, ela perde o controle sobre os próprios sentimentos e, eventualmente, sobre o próprio corpo. O que inicialmente poderia parecer apenas uma brincadeira sobrenatural envolvendo um garoto apaixonado se transforma em algo muito mais desconfortável quando pensamos no que aquilo significa.

Bear retira de Nikki a possibilidade de escolher.

E talvez o aspecto mais perturbador seja perceber como, mesmo depois de entender o que fez, ele demora demais para compreender a verdadeira dimensão da situação.

Existe sempre uma esperança de que aquilo possa funcionar. Que, de alguma maneira, aquele relacionamento possa continuar. Mesmo enquanto Nikki está claramente sofrendo e mesmo quando as consequências se tornam violentas, existe nele uma dificuldade em abandonar completamente aquilo que sempre desejou.

É aí que Obsessão passa a funcionar também como uma história sobre masculinidade tóxica.

Bear não precisa ser um vilão tradicional, cruel e calculista para causar um enorme sofrimento. O problema está justamente na forma como ele transforma o próprio desejo em algo mais importante do que a vontade de Nikki.

Ele queria aquela garota. Conseguiu aquela garota. E, durante boa parte da história, ainda tenta encontrar alguma maneira de permanecer com ela.

Enquanto isso, Nikki está presa dentro da própria versão monstruosa.

Por isso, por mais assustadora que a personagem se torne, eu nunca consegui enxergá-la verdadeiramente como a vilã do filme.

Ela é uma vítima.

As cenas que revelam a verdadeira tragédia de Nikki

Duas cenas, em especial, deixam isso muito evidente e estão entre os momentos que mais me impactaram.

A primeira acontece quando a verdadeira Nikki consegue, por alguns instantes, emergir de dentro daquela personalidade criada pela maldição. Ela acorda, conversa com Bear e implora para que ele a mate.

É uma cena extremamente pesada porque, naquele momento, toda a aparência monstruosa da personagem perde importância.

Nós entendemos que Nikki ainda está lá.

Ela sabe o que está acontecendo. Está consciente do que seu corpo está fazendo e, pior, está sofrendo presa dentro dele sem conseguir impedir nada.

Aquela sequência transforma completamente o horror da situação.

Talvez existam cenas visualmente mais assustadoras em Obsessão, mas poucas são tão perturbadoras quanto perceber que aquela garota que conhecemos no começo do filme continua consciente em algum lugar, aprisionada dentro da própria monstruosidade.

E isso torna a sequência final ainda mais poderosa.

Quando a maldição finalmente acaba e a verdadeira Nikki recupera o controle do próprio corpo, não existe uma grande celebração. Não existe alívio imediato.

Ela simplesmente chora.

Os créditos começam enquanto acompanhamos aquela personagem tentando processar tudo que aconteceu com ela.

Depois de tantos exageros, sangue, violência e momentos quase cômicos ao longo do filme, Barker encerra a história de uma maneira surpreendentemente simples.

E justamente por isso funciona tanto.

Um terror que também sabe ser divertido

O mais curioso é que, mesmo tratando de assuntos tão pesados, Obsessão consegue ser extremamente divertido.

E eu não esperava isso.

O filme tem bastante sangue, gore e momentos realmente perturbadores, mas Barker entende muito bem como brincar com o absurdo. Alguns sustos são tão criativos que existe quase uma reação em duas etapas: primeiro você se assusta e, logo depois, ri.

Muito disso novamente passa pela performance física de Inde Navarrette, mas também pela maneira como o diretor constrói suas sequências.

Existe um prazer evidente em fazer terror.

Obsessão não parece envergonhado de ser exagerado quando precisa ser. Ele consegue discutir relações abusivas e falta de consentimento sem deixar de entregar uma garota completamente ensanguentada fazendo movimentos absolutamente bizarros pela tela.

É uma combinação difícil.

E funciona.

Um fenômeno que merece o sucesso

Talvez seja por isso que o fenômeno em torno de Obsessão tenha crescido tanto.

O filme chegou a aproximadamente US$ 509,9 milhões em bilheteria mundial, apesar de ter custado algo entre cerca de US$ 750 mil e US$ 1 milhão para ser produzido — uma proporção simplesmente absurda entre custo e arrecadação.

O resultado colocou a produção entre os casos mais extraordinários de retorno sobre orçamento da história recente do cinema. Com o surgimento do fenômeno chinês Niu Lai, produzido de maneira praticamente artesanal e que posteriormente explodiu nas bilheterias chinesas, Obsessão perdeu o posto que vinha sendo atribuído a ele de maior retorno proporcional de todos os tempos. Ainda assim, seus números continuam impressionantes.

E é difícil olhar para esse sucesso e dizer que o filme não merece.

Mesmo não sendo alguém que acompanha muito o cinema de terror, Obsessão conseguiu me conquistar justamente porque oferece algo além dos sustos.

Existe gore. Existem jumpscares. Existe violência.

Mas também existe uma discussão muito interessante sobre desejo, posse, consentimento e relacionamentos abusivos. Existe uma protagonista cuja monstruosidade esconde, na verdade, uma vítima. E existe uma atuação de Inde Navarrette que consegue fazer você se apaixonar por Nikki no começo e sentir genuinamente medo dela pouco tempo depois.

Se Obsessão realmente chegar forte à temporada de premiações — e principalmente se Navarrette conseguir aquela indicação ao Oscar — será por mérito.

Para um filme que demorei tanto para assistir e para um gênero que normalmente não é a minha primeira escolha, a surpresa não poderia ter sido melhor.

Obsessão merece os números, merece os elogios e merece toda a repercussão que conquistou.

É realmente um filmaço e, para mim, um dos melhores filmes do ano.

Nota: 5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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