Pecadores transcende a tela pra ser algo mágico, sagrado e grandioso (Crítica)
Pecadores (Sinners) é, sem exageros, o grande fenômeno cultural e cinematográfico do ano passado. Com direção, roteiro e produção de Ryan Coogler (em parceria com a Warner Bros.), o filme teve um orçamento na casa dos 90 milhões de dólares e estreou originalmente nos cinemas brasileiros no dia 17 de abril de 2025. Na trama, somos transportados para o Mississippi dos anos 1930, onde acompanhamos dois irmãos gêmeos (ambos interpretados de forma brilhante por Michael B. Jordan) que decidem deixar suas vidas problemáticas para trás e retornar à sua cidade natal para recomeçar a vida e abrir um clube de blues. O problema é que eles descobrem que um mal ainda maior, antigo e sedento por sangue, os aguarda por lá: vampiros.
O impacto desse filme foi tão absurdo que ele não apenas arrecadou mais de 360 milhões de dólares nas bilheterias mundiais, mas também vem varrendo a atual temporada de premiações. Ele já levou prêmios importantíssimos da indústria, como os do sindicato dos produtores (PGA), diretores (DGA) e o WGA de Melhor Roteiro Original. No histórico Actor Awards (o antigo SAG), fez história ao vencer como Melhor Elenco e Melhor Ator para Michael B. Jordan. Pecadores também dominou o NAACP Image Awards com incríveis 13 vitórias, e levou estatuetas no Globo de Ouro, Critics’ Choice e no BAFTA — com destaque para Wunmi Mosaku vencendo como Atriz Coadjuvante e Ludwig Göransson por sua Trilha Sonora (que inclusive já faturou Grammy).
E para coroar tudo isso, o filme chegou rasgando os livros de história do Oscar 2026. Ele simplesmente quebrou o recorde absoluto da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, conquistando surreais 16 indicações e deixando para trás a marca histórica de 14 indicações que pertencia a lendas intocáveis como A Malvada, Titanic e La La Land.
Para se ter uma ideia da dominância, Pecadores concorre em 16 categorias: Melhor Filme, Melhor Diretor (Ryan Coogler), Melhor Ator (Michael B. Jordan), Melhor Ator Coadjuvante (Delroy Lindo), Melhor Atriz Coadjuvante (Wunmi Mosaku), Melhor Roteiro Original (Ryan Coogler), Melhor Fotografia (Autumn Durald Arkapaw), Melhor Trilha Sonora Original (Ludwig Göransson), Melhor Canção Original (“I Lied To You”), Melhor Edição (Michael P. Shawver), Melhor Design de Produção (Hannah Beachler e Monique Champagne), Melhor Figurino (Ruth E. Carter), Melhor Maquiagem e Cabelo (Ken Diaz, Mike Fontaine e Shunika Terry), Melhor Som (Chris Welcker, Benjamin A. Burtt, Felipe Pacheco, Brandon Proctor e Steve Boeddeker), Melhores Efeitos Visuais (Michael Ralla, Espen Nordahl, Guido Wolter e Donnie Dean) e, para inaugurar a novíssima categoria da premiação, Melhor Direção de Elenco (Francine Maisler).
Crítica – Pecadores
O que falar de Pecadores, né? Esse é um filme que eu demorei meses para escrever de fato uma crítica, porque é um filme tão gigante que é difícil resumir em um texto só. O primeiro ponto que veio na minha cabeça é que, se as pessoas resumem isso a um simples “filme de vampiros” ou a uma mera cópia de Um Drink no Inferno, elas viram apenas 1% da obra. Ele é muito mais que isso: é gigante e transcendental.
Coogler prova mais uma vez que tem o toque de Midas — ou melhor, de Vibranium. Trazendo a mesma escala épica que usou em Pantera Negra, o diretor atinge aqui o equilíbrio perfeito entre o cinema de massa e o cinema de arte, se é que essa separação existe. O primeiro terço do longa constrói a atmosfera com calma e maestria, focando na criação do Clube de Blues e na apresentação de seus vários personagens complexos e riquíssimos. Quando a ameaça dos vampiros finalmente surge meio que do nada, o filme não perde sua essência; ele abraça o folclore e a sanguinolência (como a clássica regra de ter que convidar o vampiro para entrar) sem sacrificar seu peso dramático.
O grande trunfo do roteiro é como ele usa o sobrenatural como metáfora para o colonialismo e o roubo cultural. O vilão Remmick — vivido de forma espetacular e cheia de camadas por Jack O’Connell — é um verdadeiro “sugador de culturas” em busca de conexão com seus antepassados. O filme é uma rica tapeçaria multicultural que une o povo afro-americano a outros povos como os chineses e indígenas, traçando paralelos até mesmo com as dores do povo irlandês. Todos ali compartilham cicatrizes de apagamento, escravidão e genocídio.
É impossível falar de Pecadores sem reverenciar a cena central. No Clube de Blues, quando Sammie começa a cantar, o filme rompe a barreira do som e da imagem para tocar o divino. Nas mãos de um diretor menos talentoso, essa sequência poderia soar esquisita ou até meio galhofa. Mas sob a direção de Coogler, a música age como uma máquina do tempo, unindo gerações e dores em uma comunhão espiritual. Seja na tela gigantesca do IMAX ou no sofá de casa, a experiência é, mais uma vez, transcendental. Sem dúvidas, uma das melhores experiências cinematográficas da vida.
Apesar de toda a sua profundidade teórica, Pecadores é extremamente divertido e visualmente arrebatador. O clímax entrega boas cenas de ação e efeitos especiais primorosos. Ver Michael B. Jordan aniquilando membros da KKK traz uma justiça catártica e visceral que remete imediatamente à energia de Tarantino em Django Livre. É para sentar na ponta da cadeira e aplaudir.
O encerramento é lindamente poético. O acordo firmado entre Fumaça e os vampiros para libertar Sammie escancara a tese central do filme. O vampiro — o diabo encarnado — respeita o trato, em oposição frontal ao homem branco racista do início do filme, que fingiu aliança apenas para traí-los depois. Fica a amarga reflexão: em um mundo regido pela supremacia racial, é mais confiável dançar com o próprio diabo do que fazer acordos com o homem branco.
Toda essa grandiosidade é ancorada por uma equipe no auge de suas capacidades, começando pelas atuações majestosas. Michael B. Jordan carrega o filme brilhantemente em seu papel duplo, mas os coadjuvantes são um show à parte, com grande destaque para Delroy Lindo, que entrega uma performance irretocável e justíssima para a temporada de premiações, e para a fantástica Wunmi Mosaku, que traz um peso e uma presença magnética para a tela. É revigorante ver uma presença feminina tão forte, tanto na frente das câmeras, quanto atrás delas, com destaque para a fotógrafa Autumn Durald Arkapaw, a diretora de elenco Francine Maisler e a figurinista sempre genial Ruth E. Carter. Na frente das câmeras temos mulheres que têm agência, histórias próprias e participações ativas, recusando o mero papel de “par romântico”.
No grande trunfo do filme, que é a parte musical, pode-se dizer que Ludwig Göransson consolida seu nome entre os maiores compositores da história do cinema com uma trilha sonora transcendental. E sei que já usei muito a palavra transcendental, repetindo ela 3 vezes nessa crítica, mas isso não foi por acaso. O filme bateu o recorde de indicações no Oscar em toda a história, com 16 indicações. E assim, independente dos prêmios que o filme leve, ele já é histórico por si só. O filme com mais indicações na história do Oscar é um filme que fala de cultura negra, com a grandíssima maioria do elenco sendo negra, com um diretor negro como Ryan Coogler, que ficou conhecido em Hollywood fazendo filmes da Marvel. Então, assim, Pecadores já é histórico. E é por isso tudo que Pecadores transcende a tela para se tornar algo mágico, sagrado e grandioso.

Nota: 5/5
✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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