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A Voz de Hind Rajab: Um espelho devastador da humanidade (Crítica)

Poucas vezes o cinema se depara com uma obra que transcende tão violentamente a barreira entre a arte e a vida. A Voz de Hind Rajab (The Voice of Hind Rajab) não pede licença para ser apenas assistido; ele exige ser testemunhado.

Sob a direção da cineasta tunisiana Kaouther Ben Hania (indicada ao Oscar anteriormente por As Quatro Filhas de Olfa), o filme é um docudrama visceral. A trama recria as horas finais de Hind Rajab, uma menina palestina de 6 anos presa em um carro cercado pelos corpos de seus familiares em Gaza, enquanto aguardava um socorro que se tornou uma corrida contra o tempo e a morte. O que torna a experiência única — e insuportável — é a decisão de utilizar as gravações reais dos pedidos de socorro de Hind, fundindo a encenação cinematográfica com o registro documental da tragédia.

Essa abordagem rendeu ao filme uma trajetória de consagração. Após uma estreia no Festival de Veneza, onde foi ovacionado e levou o Grande Prêmio do Júri (Leão de Prata), a produção acumulou indicações aos maiores prêmios da indústria: disputou o Globo de Ouro, garantiu sua vaga entre os indicados ao BAFTA de Melhor Filme em Língua Não Inglesa e, coroando sua jornada, acaba de ser oficializado como finalista ao Oscar de Melhor Filme Internacional em 2026.

Não à toa, o projeto atraiu uma coalizão de gigantes da indústria para a produção executiva, nomes que emprestaram seu prestígio para amplificar a denúncia: Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara, além dos diretores Alfonso Cuarón (Roma) e Jonathan Glazer (Zona de Interesse).

Trazido ao Brasil pela Synapse Distribution, o filme teve passagem pelo Festival do Rio antes de sua estreia oficial, que acontece exclusivamente nos cinemas nacionais nesta quinta-feira, 29 de janeiro. Abaixo, deixo minha crítica completa sobre essa experiência que desafia, de forma dolorosa, a nossa própria humanidade.

CríticaA Voz de Hind Rajab

É difícil categorizar A Voz de Hind Rajab apenas como um filme. Ao assisti-lo, a sensação é de estar diante de uma das obras mais impactantes não só desta temporada, mas dos últimos anos. E esse impacto não vem de artifícios de roteiro ou reviravoltas criadas para chocar, mas da própria substância da realidade onde a trama habita.

O que torna a experiência devastadora é a percepção de que estamos assistindo a quase um documentário. Por mais que existam atores em cena e uma estrutura narrativa, a espinha dorsal do filme é a verdade nua e crua. A decisão de utilizar todo o material de áudio real — as gravações originais das conversas com a menina Hind — transforma a projeção. Quando você, como espectador, toma consciência de que aquelas vozes não são atuações, mas registros reais de desespero, o filme transcende a tela. É um golpe de realidade que nos obriga a confrontar o que está sendo ouvido. Isso leva a uma reflexão inevitável: se você não se emociona ou não se sente profundamente abalado por essa obra, há algo que precisa ser revisto em sua própria humanidade. O filme não é apenas entretenimento; é um documento sobre o genocídio praticado pelo Estado de Israel contra o povo palestino.

Visualmente, o filme adota uma linguagem curiosa. Em alguns momentos, ele remete àquelas reconstituições de crimes reais vistas em programas jornalísticos, onde se encena o que aconteceu para ilustrar os fatos. Mas é fundamental não confundir essa semelhança com simplicidade ou falta de profundidade. Pelo contrário: sob a condução da diretora Kaouther Ben Hania, essa estética de “reconstituição” é elevada a um nível de excelência técnica impressionante. Não há nada de raso aqui. Ben Hania extrai atuações soberbas que honram as pessoas reais, constrói uma montagem precisa que dita o ritmo da angústia e utiliza uma fotografia que nos coloca dentro daquele pesadelo. O filme emociona porque é cinema de verdade, tecnicamente brilhante em todos os aspectos.

Ver essa produção indicada à categoria principal de Melhor Filme Internacional é um alento, especialmente numa temporada tão concorrida. A presença de A Voz de Hind Rajab ali, impulsionada por um time de produtores executivos de peso — que inclui Brad Pitt, Joaquin Phoenix, Rooney Mara, Alfonso Cuarón e Jonathan Glazer — garante que essa história não seja ignorada. Sabemos como funciona a indústria: a etiqueta “Oscar” e esses nomes trazem holofotes. E a esperança é exatamente essa: que essa visibilidade sirva para denunciar ainda mais os horrores que continuam acontecendo, servindo para algo muito além da estatueta.

Talvez o aspecto mais doloroso da experiência seja a armadilha da expectativa cinematográfica. Porque é um filme, nós, ingenuamente, esperamos que a lógica de Hollywood prevaleça. Esperamos o resgate no último segundo, torcemos para ver a garota salva, bem e abraçada pela família ao final. O filme nos permite ter essa esperança… até que a realidade se impõe. O desfecho não traz o alívio da ficção, porque a realidade da qual ele se alimenta não permite finais felizes. Segundo dados recentes do UNICEF e de autoridades de saúde locais, mais de 20.000 crianças já foram mortas na Faixa de Gaza desde o início do conflito. O choque final do filme vem justamente dessa quebra: ele nos lembra que, fora da sala de cinema, não há corte, não há “felizes para sempre” e o massacre de inocentes continua. É uma obra brutal, necessária e, infelizmente, real demais.

Retrato de Hind Rajab, a menina palestina de 6 anos cuja história real inspira o filme A Voz de Hind Rajab. Ela aparece sorrindo com cabelos cacheados presos, transmitindo inocência em contraste com a narrativa trágica abordada na obra da diretora Kaouther Ben Hania.

Nota: 5/5

✍🏽 Marcelo Silva, CEO do Multi Nerdz
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Marcelo Silva

CEO, 26, SP

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